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| Depois eu tiro a papagaio de pirata |
Grandes descobertas se fazem por acaso têm os portugueses vasta experiência nisso. Pelo menos é o que se diz da descoberta do Brasil, esquadra a caminho das Índias. Esquadra não, porque esquadra é polícia, naus.
Pois nesse domingo que está se acabando aqui em Lisboa, e que fez um dia lindo, muito azul, a viajante ia às Índias e deu no Brasil. Explica: por acordar tarde, mais uma vez, deixou de ir a Tomar, a pouco mais de 120 quilômetros de Lisboa e foi parar em Sesimbra, que é mais perto. Mas ainda pretende ir à primeira.
Quanto à Sesimbra, que começou como vila de pescadores ainda em 1200, mas teve outros ilustres habitantes muito antes, a comprovar-se pelas pegadas de dinossauros, em suas redondezas, uma agradável surpresa, ou não, já que em Portugal não há surpresas, surpresas, tudo se espera em beleza, história, arqueologias, geografias. Na região metropolitana de Lisboa, vai-se de comboio, autocarro e de carro.
A estrada é uma maravilha de árvores verdes, pinheiros, serras suaves, é o mesmo caminho para Setúbal. Na cidade há umas praias muito boas e nesse domingo, com o tempo bom e calor, elas estavam cheias, não aquele mundaréu de gente, como no Brasil, uns gatos pingados.
No centro da cidade, olha daqui, olha dali, mas dá com tudo fechado e já se prepara para ter um dia de Saramago, irritada por não ver por dentro o que se advinha por fora. A moça do Turismo sugeriu algumas capelas, a do Espírito Santo, a Matriz, a da Misericórdia, "onde há o Senhor das Chagas, protetor dos pescadores, atividade primeira de Sesimbra, antes do turismo".
Fechada a Misericórdia, fechado o Forte de Santiago para reformas, e fechada a capelinha do Espírito Santo para uma exposição mais tarde, a viajante só consegue ver umas ruínas subterrâneas da última, onde, dizem, funcionou um hospital medieval. Há um castelo também fora da cidade, cujo não houve tempo de ver de perto, mas de longe se avistam suas muralhas.
Já cansada desses fechamentos, pega um ônibus e vai para o Cabo Espichel. Aí, sim, começa a visita. É um promontório gigante, rico em falésias e um mar de um azul turqueza lá embaixo, a bater na rocha, empurrado por um vento forte.
É um conjunto formado pela Igreja de Nossa Senhora do Cabo, um aqueduto, uma praça medieval e vestígios muito, muito antigos. A igreja e a casa de águas, nem tanto, só dos Setecentos.
Faz parte do conjunto, mas um pouco mais além, talvez um quilômetro, um farol mais moderno.
Anda-se aqui e ali, para-se para as fotos, lê-se a placa de cuidado que a falésia é instável com risco de desabamento, e escuta-se o passageiro que dividiu a vinda com essa aqui, dizer que ali muita gente ia a se atirar ao mar. Não é o caso da viajante, pode ficar descansado o senhor. "É, e essas águas são tão revoltosas, que muita gente que aqui chega de barco, deixa tudo no mar, até as tripas, pá. É o Cabo das Tormentas". Cometem-se imprecisões geográficas em nome da boa piada que se compartilha nessas intimidades inesperadas de viajantes.
E lá para a arriba mesmo, a viajante come um pão com linguiça, que eles dizem pão com chouriços, e uma cerveja, porque o ônibus só sai às 15h30 e o oco do mundo vai fazendo estragos no estômago.
Já em Lisboa, a viajante encontra seu primeiro engarrafamento, porque houve uma batida de três carros e fica tudo muito lento.
Mas e daí?

































