domingo, 30 de setembro de 2012

Cabo Espichel

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Depois eu tiro a papagaio de pirata

Grandes descobertas se fazem por acaso têm os portugueses vasta experiência nisso. Pelo menos é o que se diz da descoberta do Brasil, esquadra a caminho das Índias. Esquadra não, porque esquadra é polícia, naus. 

Pois nesse domingo que está se acabando aqui em Lisboa, e que fez um dia lindo, muito azul, a viajante ia às Índias e deu no Brasil. Explica: por acordar tarde, mais uma vez, deixou de ir a Tomar, a pouco mais de 120 quilômetros de Lisboa e foi parar em Sesimbra, que é mais perto. Mas ainda pretende ir à primeira.

Quanto à Sesimbra, que começou como vila de pescadores ainda em 1200, mas teve outros ilustres habitantes muito antes, a comprovar-se pelas  pegadas de dinossauros, em suas redondezas, uma agradável surpresa, ou não, já que em Portugal não há surpresas, surpresas, tudo se espera em beleza, história, arqueologias, geografias. Na região metropolitana de Lisboa, vai-se de comboio, autocarro e de carro.

A estrada é uma maravilha de árvores verdes, pinheiros, serras suaves, é o mesmo caminho para Setúbal. Na cidade há umas praias muito boas e nesse domingo, com o tempo bom e calor, elas estavam cheias, não aquele mundaréu de gente, como no Brasil, uns gatos pingados.

No centro da cidade, olha daqui, olha dali, mas dá com tudo fechado e já se prepara para ter um dia de Saramago, irritada por não ver por dentro o que se advinha por fora. A moça do Turismo sugeriu algumas capelas, a do Espírito Santo, a Matriz, a da Misericórdia, "onde há o Senhor das Chagas, protetor dos pescadores, atividade primeira de Sesimbra, antes do turismo".

Fechada a Misericórdia, fechado o Forte de Santiago para reformas, e fechada a capelinha do Espírito Santo para uma exposição mais tarde, a viajante só consegue ver umas ruínas subterrâneas da última, onde, dizem, funcionou um hospital medieval. Há um castelo também fora da cidade, cujo não houve tempo de ver de perto, mas de longe se avistam suas muralhas.

Já cansada desses fechamentos, pega um ônibus e vai para o Cabo Espichel. Aí, sim, começa a visita. É um promontório gigante, rico em falésias e um mar de um azul turqueza lá embaixo, a bater na rocha, empurrado por um vento forte.

É um conjunto formado pela Igreja de Nossa Senhora do Cabo, um aqueduto, uma praça medieval e vestígios muito, muito antigos. A igreja e a casa de águas, nem tanto, só dos Setecentos.

Faz parte do conjunto, mas um pouco mais além, talvez um quilômetro, um farol mais moderno.

Anda-se aqui e ali, para-se para as fotos, lê-se a placa de cuidado que a falésia é instável com risco de desabamento, e escuta-se o passageiro que dividiu a vinda com essa aqui, dizer que ali muita gente ia a se atirar ao mar. Não é o caso da  viajante, pode ficar descansado o senhor. "É, e essas águas são tão revoltosas, que muita gente que aqui chega de barco, deixa tudo no mar, até as tripas, pá. É o Cabo das Tormentas". Cometem-se imprecisões geográficas em nome da boa piada que se compartilha nessas intimidades inesperadas de viajantes.

E lá para a arriba mesmo, a viajante come um pão com linguiça, que eles dizem pão com chouriços, e uma cerveja, porque o ônibus só sai às 15h30 e o oco do mundo vai fazendo estragos no estômago.

Já em Lisboa, a viajante encontra seu primeiro engarrafamento, porque houve uma batida de três carros e fica tudo muito lento. 

Mas e daí?

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Armênios e doces de Portugal

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Jesuítas

Pasteis de Belém

Queijadinha


Já estava pronta para escrever sobre os doces portugueses, que não engordam, a contar-se pelas quantidades que a viajante vem comendo e seu peso está no mesmo, 20 e tantos dias depois de cá ter chegado, quando pensa que precisa repor os armênios no seu lugar.

Explica: na postagem anterior, a viajante cometeu várias injustiças, para não admitir como imprecisões históricas e geográficas com aquele povo, depois de ter viajado com um casal do país. Aí foi a buscar notícias na sua fonte, a internet, e encontrou esse artigo muito bom, cujo link está aí, para seus seguidores aprenderem também e não ficarem ignorantes como essa uma. Depois volta aos doces.
http://www.jptfernandes.com/docs/O_que_aconteceu_aos_armenios.pdf


Então aos doces. Nunca se viu um escândalo maior: mais do que as medidas do Passos Coelho de Taxa Única e tesoura nos salários, que aliás merecem, hoje, manifestação monstro convocada pela CGTP, a CUT e CGT do Brasil.

Os doces daqui são melhor do que bacalhau, do que vinho do Porto, do que vinho do Alentejo, do que vinho verde ou maduro.

É tudo uma maravilha de massas folhadas, açúcares refinados por cima, amêndoas e recheios constantes de doce de ovos, Portugal deve ser rico em galinhas, tanto ovo para os doces, onde estão elas?

Que o galo sabe bem que é lá de Barcelos, Norte, mas a viajante também ouviu falar que no terreiro basta um, apesar do de Barcelos existir aos milhares.

Onde estão as galinhas dos ovos de ouro, literalmente, de Portugal?
E por que os doces não engordam?

A viajante crê, naquela crença dos inocentes úteis que acreditam em tudo, até numa balança de farmácia, ainda que as roupas estejam a apertar-se na cintura, que há uma compensação.

E explica: come-se muito doce, mas anda-se muito, sobe, desce ladeira, dia todo. Então engorda-se na barriga e cintura e emagrece-se nas pernas. É a lei da compensação, alegra-se a viajante, escolhendo entre um pastel de Belém, um jesuíta ou uma queijadinha, para arrematar o café da manhã e pensando ainda no toucinho do céu, fatias de Braga, trouxa de nozes e Dom Rodrigo, entre muitos e muitos mais.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Michel Teló na Armênia


Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Fátima, sentuário


Convento da Batalha
 Saramago tinha razão ao dizer que viajar é descobrir, pois hoje a viajante quase caiu de costas, como se diz no Brasil, ao encontrar um casal da Armênia e a garota cantar "ai, ai, se eu te pego, assim você me mata, 'melicia', assim você me mata".

O choque foi tão maior, por essa viajante não se lembrar nada da Armênia, nem onde fica, nem o que se fala lá, se é país islâmico. Foi uma descoberta, ainda mais, que além de Teló, a Anush conhece várias novelas da Globo e citou quatro ou cinco atores globais: Dalton Vigth, Giovana Antonella e, claro, Aracy Balabanian, afinal foi ela quem fez a D. Armênia, numa novela a duzentos anos atrás.

E aí ficamos sabendo, com muitos "sorry", por nossa ignorância, que o país está ali espremido entre a Turquia, Rússia e não sei mais quê e sofre grande influência da Itália, porque a garota citou todos carros italianos e o rapaz os times de futebol, indicando bem as preferências de cada qual, cuja é engenheira de informática, pelo que entendi, e cujo é advogado.

Ele, Arthur, não gosta dessa música brasileira, nem das novelas, "séries", como estavam a dizer em inglês. E a língua não é o árabe, como pensou a ignorante viajante, mas o armênio, uma das línguas mais antigas, informam os dois. E não pertencem ao Islão, quase "Deus me livre", eu entendi.

Fátima, Óbidos, Alcobaça, Nazaré, Batalha
E nessa mistura multicultural,  um casal italiano, um casal formado por uma indiana e um quenio-indiano, residentes há muitos anos em Londres, fomos para Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré e Óbidos, num dia meio nublado e mais fresco.

Pela segunda vez em Fátima, a viajante se emocionou na Capela das Aparições e acendeu velas elétricas, com 50 cêntimos cada, para vários pedidos. E como os há.

Encantou-se de novo com o cristo de cabelo hirsuto da Basílica nova e só dessa vez descobriu que há 12 portas de entrada nela, uma para cada um dos apóstolos. Entrou pela de Simão, o Pedro, não por preferências outras, mas por ser a única aberta.

Gostou especialmente do convento de Batalha, dedicado a Santa Maria, para agradecer a vitória dos portugueses sobre os espanhois, na batalha de Aljubarrota, onde se consolidou Portugal como estado e o que é o mundo hoje. Se os espanhois tivessem ganho, certamente D. Henrique não seria rei e nem teria dado início`as grandes navegações, e o Brasil não teria sido descoberto, conclui, com praticidade, o guia Paulo, esse sim, conhecedor da história pátria dele. O convento é rendilhado como Jerônimos, mas não branco, mas aquele amarelecido de velho.

Em Alcobaça houve uma visita de médico pelo mosteiro onde estão enterrados D. Pedro I e dona Inês de Castro, aqueles dois infelizes romeu e julieta portugueses, das histórias de amores impossíveis. Agora e tarde, Inês é morta!

Nazaré é outra visita de médico, mas vale a pena pela vista do mirante. Um mar furioso lá embaixo do penhasco, onde se situa parte da cidade, sobre e sob.

E em Óbidos, a viajante desistiu de subir novamente aquela escadaria infernal da muralha que cerca a cidade. É um encanto de ruelas com muitas flores nas janelas, a cidade ali, abrigada por suas muralhas medievais, sob a vigilância do castelo, onde hoje está uma pousada muito bonita.

É tudo muito bonito, incluindo as tentativas de comunicação entre esta uma e o italiano. Nem inglês, nem espanhol, o italiano era só "dopo", "prego", "andiamo". E fomos caminhando pelo tempo que é Óbidos, enquanto a esposa esperava do lado de fora da muralha, já cansada de "iglésias, carina". Difícil impressionar quem vem da Itália, nesse ramo dos monumentos cristãos, pois.

Difícil também é explicar para a armênia, que Maria é a mesma mãe de Deus e Fátima também a própria. Os armênios falam perfeitamente o inglês, não falam as nuances religiosas, mesmo "sendo o país mais católico, do mundo ou da Europa", garante Anush, sem a compreensão correta dessa viajante.

Chove agora em Lisboa, quase 22 horas, uma chuva mansa, boa de se ouvir. Adeuses.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Oceanário para desanuviar


Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Na falta de um "sermão aos peixes", que inicia o instigante Viagem a Portugal, de José Saramago (página 15), a viajante vai de oceanário e se sente tal e qual o português, na sua fala aos habitantes de mares e rios.


Medalha de ouro em nado sincronizado
  Quando as igrejas e suas belas imagens começam a embaralhar-se na memória, é preciso dar um tempo e ir ver o dia, o mar/rio, ou outra coisa qualquer.

Por isso, com a ida à Estação do Oriente, para comprar o bilhete para Évora, a viajante dá de cara com o Parque das Nações, onde aconteceu a Exposição Mundial de 1998, que Portugal sediou. E bem ali, vai passear no teleférico, sobre o Tejo. O dia está nublado, mas o passeio é giro (bonito).



A viagem dos pinguins
 
Arraia azul
 
Mas gira mesmo é o Oceanário, podem dizer que aquários são iguais em todo o mundo. Pode ser, mas o de Lisboa, atravessando o shopping Vasco da Gama, vendo o pavilhão das bandeiras, é muito gira, giríssimo. E dizem, o maior da Europa. Aliás, acho que os portugueses são de Itu, porque aqui há muitas coisas "mais" e "maiores", como já disse quando da ida a Setúbal.

O Oceanário é sobre o Rio Tejo, com aquários de diversas partes do mundo, dos oceanos Atlântico, Pacífico, Índico.

A viajante ficou feliz de ver pinguins, o que não conseguira na Patagônia, em abril, porque eles, os pinguins, já haviam migrado para o Brasil, sabe-se lá porquê.

Os pinguins sao quase uns pássaros maiores, mas os daqui, devem ser filhotes, a viajante não sabe, porque fica esperando aqueles grandões do "A viagem dos Pinguins", ou o "Pinguim Imperador", escapa-lhe agora o nome do filme e não os encontra, como aconteceu na Patagônia. Sente-se como então, ludibriada, menos talvez, porque aqui é Portugal e não a Patagônia, onde deveriam morar mais amiúde.

Bonito mesmo é o aquário central que se pode vir em três níveis e tem ali uma variedade de peixes, pequenos, médios, grandes, arraias, tubarões, bacalhaus e tais e a viajante pensa como uns não comem os outros, mas não encontra ninguém para perguntar, também tem vergonha de fazer uma pergunta tão estúpida.

Gosta especialmente de um cardume quase transparente. Acredita que eles devem ganhar medalha de ouro na Olimpíada do Brasil, em nado sincronizado. Também aprecia uns peixes do Índico, muito rosas, roxos, amarelos, violetas, ton-sur-ton. Arco-iris que inspirou certa bandeira, certamente. E ainda de uns seus "barentes", as lontras.

Há vidas estranhas no mar: peixes areia, peixes chatos, peixes lerdos, peixes sem o serem como os pinguins e a viajante pensa que a vida é que é estranha, porque tenta imitar a natureza e aí vira avacalhação, com perdão da palavra, pois.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ebora Liberalitas Iulia (Évora)

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Templo Romano ou de Diana


Nossa Senhora do Leite

Um dos lados da catedral de Sta Maria, grandiosa
Com o tempo nublado, ameaçando chuva, já que por aqui as estações são muito obedientes, foi só entrar outono e já há um vento no ar e umas pancadinhas de chuva, além das echarpes femininas e masculinas a passear por aqui e ali, a viajante foi para Évora.

Cedinho, cedinho, porque foi tomar o comboio na estação do Oriente,  bem longe, quase no aeroporto. mas como boa mineira, ao invés de pegar os metrôs como havia programado, tomou um táxi, medo de perder o comboio, mineiro não perde o trem.

Não vai a viajante descer a detalhes sobre Évora, deixa para que quem quiser que visite o site aqui.

Mas é um passeio imperdível, afinal lá estiveram os romanos que a fundaram, e há seus vestígios no Templo Romano, ou de Diana, em muralhas e calçadas. Mas antes deles, estiveram outros povos, presentes nos monumentos megalíticos mais antigos que Stonehenge, aquele da Inglaterra, parecendo um chapéu. O de Évora é do século V, A.C, dá pra imaginar o que é isso?

Igrejas e muralhas

E tem medieval, gótico, setecentista, o que faz da cidade, cujo centro histórico está dentro das muralhas medievais, Patrimônio Cultural da Humanidade. São igrejas e mais igrejas, que a viajante, de tanto visitá-las por toda a parte, já se esqueceu da maioria. Mas a de Santa Maria, Évora, é especial. É uma fortaleza, pendurada em vários desníveis, o que deve ter exigido muita imaginação dos arquitetos da época, séculos XIII e XIV. Vai-se rodeando-a e a cada lado é uma surpresa.

 E foi também no Palácio de Cadaval, onde viu a segunda Nossa Senhora do Leite, linda, com o seio de fora, um bicão à mostra e o menino Jesus com a mão estendida para ele.  Não se lembra onde viu a outra, só se lembrou de outra mãe a amamentar seu filho que só mama e dorme.

Capela dos Ossos
Visita que a viajante dispensa, de uma próxima vez, é a tal Capela dos Ossos, junto à Igreja de São Francisco, que ideia a do frade construir a capela com os ossos de todos aqueles que morreram na cidade, por uma peste que houve naquelas bandas. É horrível a sensação. A viajante, que tem muita imaginação, chegou a sentir até cheiro de ossos, o que não é possível, devido à antiguidade do lugar, muito "trash", para a sensibilidade de alguns, como esta aqui. Saramago também não gostou, está entre os sensíveis.

Bem, a viajante acabou falando o que se propôs a não falar, ossos do ofícios, sem trocadilhos com a capela. Mas é que no comboio, ao chegar na estação da cidade, pergunta a uns moços como faz para chegar ao centro histórico e recebe a oferta de uma carona, "porque há o ver e o olhar", disse um deles, o que a levou a mudar o horário de voltar.

Mas depois de reservar o hotel e dar suas voltas, resolveu desmudar o horário e voltou antes, coisas de estranheza que se sente de repente, sem explicações. Influências, quem sabe do tempo cinza, sem ser os "57 Tons", ou dos ossos daqueles infelizes sustentanto paredes, ou saudades de casa, mesmo que essa casa seja em Lisboa.

E em casa, com um arzinho de frio, sem sê-lo, toma um vinho tinto Dão, "Meio Século", muito bom, feliz de estar entre conhecidos: seu sofá verde, suas paredes amarelas, sua Tv ligada na RTP.





segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Rua Augusta é o mundo

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Arco do Triunfo, ou da rua Augusta, de 1843

O que disse esta viajante dia destes sobre os sons do mundo? Que viu uns cantores ali pelo Chiado, uns no Largo do Carmo?

Pois "cesse tudo que a Musa antiga canta, porque um canto maior se alevanta". E tinha Camões razão em desdizer antigos saberes, como essa uma aqui faz agora. Os sons e artistas de rua do mundo estão na Rua Augusta, com seu belíssimo Arco do Triunfo abrindo-se para a Praça do Comércio.

Numa passada por lá no sábado, a caminho do show do Ney Matogrosso, a viajante constata que a rua tem o charme dos restaurantes e cafés, porque é uma calçada para pedestres, algumas lojas chiques, nem tantas mais, mas tem um mundo de artistas, para todos os gostos.

Viu um acordeonista muito bom. Duas espanholas dançando flamenco, sendo que a segunda dançou ao som de uma música francesa, vá-se entender os delírios artísticos. Um trumpetista, um trio com uma cantora de voz belíssima, que cantou uma música brasileira.

Mas a maior atração foi um homem tascando fogo no corpo. A viajante ficou por ali uns instantes, curiosa com as tantas gentes em volta do homem e ele só acendendo velas. Aí começou a passar o fogo nos braços, arh, que nojo!

Assovios e aplausos para o pirotécnico, quase Zacarias, o que levou a viajante a refletir que a humanidade é definitivamente escatológica, tragicômica, mas critica os homens-bomba, os autoincineradores orientais. Esses pelo menos têm um motivo religioso-político-filosófico.

A Rua Augusta é campeã de atrações esdrúxulas, filosofa, baratamente, a viajante.

domingo, 23 de setembro de 2012

Ney espetacular em Lisboa

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...




Ney, eternamente sensual



Praça do Comércio

À espera do show, duas horas antes

Arco da Rua Augusta, no centro da praça
 Ney Matogrosso é universal, constata esta viajante, ao assistir ao show dele, ontem, na Praça do Comércio. Praça grande, enorme, como as "plaza mayor" disseminadas por toda a Espanha, e que estava lotada. E não eram só brasileiros, pelos sotoques em volta.

Ney, o melhor intérprete do Brasil, do mundo, não, do planeta, melhor, da galáxia, é capaz de despertar paixões, ainda agora aos 70 anos. Aquela ginga de quadris característica desde os tempos de Secos e Molhados, ainda arranca assobios, aplausos, uhuus, suspiros, lindo, gostoso, tira a roupa.

Mas ele está mais comedido como convém à idade e faz um show romântico, perfeito na escolha das músicas, arranjos musicais, iluminação, cenários.

O público aguardava aquele Ney irreverente, que fizesse um pequeno strip tease, mas ele se limitou a brincar com o paletó de Ocimar Versolato, arregaçando as mangas da camisa, vagarosamente, criando suspense e afrouxando a gravata. O povo foi ao delírio.

Ney está melhor do que nunca, e esta viajante não se importa de exagerar nos adjetivos. Não tem culpa se o artista é seu intérprete preferido (não melhor cantor, este é Caetano). É que o segue há mais de 40 anos, quando o viu pela primeira vez, num festival meio lama, meio Woodstock, no Serra Verde, Belo Horizonte, que ainda era um descampado com o hipódromo, lá pelos 70 e poucos, tempos de faculdade.

Monobloco
E para não ser injusta, a viajante conta a explosão de alegria que foi a apesentação do Monobloco, meia hora depois. A galera foi à loucura, de pé, dançando, cantando. Muita gente que estava bem ali na frente, como esta uma aqui, que chegou duas horas antes para pegar um bom lugar, teve de subir nas cadeiras, porque a meninada gosta de show é em pé.

E de quebra, o Ney ainda voltou ao palco e cantou com a rapaziada do Monobloco, "Pro dia nascer feliz" e um forrozinho "Aí o pau come".

Sábado na Feira da Ladra

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Nesse sábado de "a-toísse", privilégio de quem não está de passagem rápida por Lisboa, a viajante vai para Alfama. Desce no Largo das Portas do Sol, depois de pegar o elétrico 28, entupido. Mas ali ainda não é Alfama. Volta à Igreja Menino Deus, mas ela continua fechada.

Então pergunta para um morador, sentado à porta de casa, se a Alfama está perto. "Tá, pois, meta-se ali à direita, siga os trilhos do elétrico. Já fostes à Feira da Ladra? Hoje é dia, só terça e sábado. É perto".

Lá se foi, descendo, descendo e dá na igreja de São Vicente de Fora. Atrás fica o Largo da Ladra.

Entra pelo arco lateral e quase volta: "a Feira da Ladra é uma roubada", escuta Naiara a falar em sua lembrança, porque ela não está ali, mas no Brasil.

Só porque é um indistinguível comércio de roupas e trecos usados, ali na entrada, com uma mulher oriental, talvez indiana, talvez marroquina, a berrar: "ropa é unheiro" (um euro, entenda-se).

Mas Naiara  é assim mesmo, e a viajante ignora o comentário que poderia ter sido também "é um mercado de pulgas e não de antiguidades, como o de Santelmo, em Buenos Aires". E a viajante passeia aqui e ali, nas diversas ruas onde a feira se espraia.

Tem de tudo, roupas e calçados velhos e sujos, eletrodomésticos antigos e quebrados, revistas, jornais, gravuras, velhos. Uma ou outra louça antiga, se calhar.

Muita bugiganga, como em mercados de pulgas, até no da Lagoinha, quando existia, por isso a viajante prossegue com olhar atento. E vê uma barraca com máquinas fotográficas antigas, as lomos, uma reflex de estúdio.

Ah, o olho treinado descobre algo: livros, muitos livros. Novos, velhos, talvez raros. Mas não dá para comprar nada, a viajante pensa no peso das malas e se senta a um boteco (esta palavra não existe por aqui). E come uma feijoada, com duas cervejas, coisas de "A Cantina", da brasileira Selma.

Um dia de Feira da Ladra foi suficiente. Naiara tem razão.

E enfim perde-se nos becos da Alfama, como Saramago, e acaba perto da Alfândega, onde é obrigada a tomar um sorvete, mesmo muito satisfeita com a feijoada, porque o calor está demais!

Pela madrugada, cai uma tempestade e a temperatura em Lisboa começa a mudar: uma brisazinha e um sol menos inclemente. Já não era sem tempo

sábado, 22 de setembro de 2012

Luis Fernando Veríssimo, Ney Matogrosso

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Naturalmente cheio, o Rossio recebeu ontem um público diferente, final de tarde, início de noite, interessado no debate do Festival de Literatura, uma das atrações do Ano do Brasil em Portugal.

Rodeada por barracas de livros de várias editoras capitaneadas pela LeYa, havia uma tenda grande abrigando uma mesa de debates sob o tema "Minha Língua, minha Pátria" (de um dos textos de Fernando Pessoa, usada por Caetano Veloso, na música "Língua").

Luís Fernando Veríssimo, caladíssimo, ali no meio do angolano José Eduardo Agualusa ("Nação Crioula"), da portuguesa Inês Pedrosa (peça "Fica comigo esta noite") e do também português Miguel Sousa Tavares, que fez um discurso ácido contra o acordo ortográfico, chamando-o de "aborto".

O debate foi interessantíssimo, com Sousa Tavares bastante provocativo e irônico, a ponto de propor a volta do português falado no século XVIII, "igual em Portugal e no Brasil, se o problema hoje é nos entendermos".

Por ali havia um projeto de um livro coletivo, com todo mundo deixando sua frase sobre o tema, que dizem será editado pela LeYa, posteriormente. Deixei a minha ali.

Hoje tem Zuenir Ventura e Veríssimo, de novo, sob o tema "Conversas no Tempo.

E encerrando, em grande estilo, o show de Ney Matogrosso, na Praça do Comércio, no Terreiro do Paço, onde dá para ir a pé do Rossio. E tem também Monobloco.

Amanhã, domingo, os debates prosseguem no Rossio e no Terreiro tem Martinho da Vila, Zeca Baleiro. Não dá para perder, por isso, a viajante vai dar um tempo nas andanças turísticas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ano do Brasil em Portugal e vice-versa

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Hoje começam as atrações populares do Ano do Brasil em Portugal e vice-versa para quem está no Brasil. Programação aqui

No Rossio, à tarde, há uma feira de literatura e uma extensa programação de mesas-redondas, palestras, seminários, peças teatrais e shows musicais. Mas na área de artes plásticas, exposições estão acontecendo desde o início do mês.

Amanhã (22) e domingo (23), há shows gratuitos  na Praça do Comércio (Terreiro do Paço), além do Rossio.

O imperdível fica por conta da apresentação de Ney Matogrosso, na Praça do Comércio. No domingo tem Martinho da Vila e Zeca Baleiro, entre outros. A brasileirada deve ferver por lá.

Península do Setúbal luxuriante

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...
Convento da Arrábida

Vista das praias


Por causa de um atraso, perdeu-se um passeio programado, ganhou-se outro, provavelmente melhor. A viajante resolve fazer um passeio para Setúbal, porque queria ir na Quinta da Bacalhoa, na Quinta de José Maria da Fonseca, onde nasceram os vinhos Piriquita. E conhecer outros vinhos, já que Setúbal é o berço do moscatel.

Aliás, Setúbal parece Itu (SP). Lá tudo é o primeiro e o maior, a viajante fica sabendo por informações do taxista-guia que contratou. Tem os melhores peixes do mundo, a marca mais antiga de vinho tinto português (isso, o Piriquita), sem falar no famoso queijo de Azeitão, conforme vai explicando  José David, o simpático taxista versadíssimo na história do lugar. Dessa forma, a viajante viaja no tempo e vai ali pertinho, num lugarzinho chamado Vila Nogueira de Azeitão, onde está a Quinta da Bacalhoa, bonita de se ver e visitar, mas é preciso hora marcada, o que a viajante não tem.


 Quinta da Bacalhoa
A quinta foi comprada por José Berardo, o mesmo do museu, "dizem que o homem mais rico de Portugal", vai explicando José David, ao mostrar que os jardins da quinta têm várias obras de arte: um jardim japonês, esculturas de artistas portugueses famosos e uma estátua de Abrahan Lincon, que a viajante achou de gosto muito duvidoso. Natureza e arte se encontram na Bacalhoa, e história milina presente nas diversas oliveiras de mais de mil anos, pelo que está escrito nas placas com datas do plantio.

Berardo fez fortuna na África do Sul, como "garimpeiro, como se diz no Brasil, ah, pois, retirando ouro", diz José;  "retirando diamantes, isso sim", acrescenta a viajante opiniuda. A visita ao interior vai ficar para outra vez, quando essa aqui for mais previdente e agendar.

Península
Tudo compõe a Península de Setúbal, esclareça-se, não só a cidade, que na entrada parece bem com Contagem (MG), com suas chaminés de fábricas.

A península é abençoada com uma deslumbrante vista da Serra de Arrábida de um lado e o mar ou Rio Sado, de outro, porque aqui também há aquela confusão de mar e rio.

A serra está um pouco encoberta por uma névoa, o que a deixa mais bonita ainda, principalmente no ponto onde há o Convento da Arrábida, todo branco em meio à vegetação verdíssima, lá nas pirambeiras. Não contentes de construir ali arriba, os monges ainda construíram uma dezena de pequenas capelas, feito umas torritas, entremeadas floresta adentro, um encanto de se ver e de subir e descer, para aqueles de maior fôlego.

O Parque Nacional da Arrábida é patrimônio da humanidade, o que não impede a presença de uma fábrica de cimento dentro de seus limites, causando estranheza à viajante, "o que não é nada comparado à ideia que teve um dirigente, de instalar ali o lixão da localidade, pá", completa José.

Do lado do mar é uma sucessão de pequenas praias, escondidas em baías quase secretas. Figueira, Portinho, a primeira, maior, e a segunda, um encanto de cartão postal.

"E há grutas, a lapa de Santa Margarida é a mais conhecida, e uma cela romana naquelas pedras, que a gente ia quando miúdos, tudo hoje fechado",  acrescenta José.

E ainda se pode atravessar o Rio Sado, no ferry em Setúbal e ir à Troia, faixa de areia branca, com os hotéis de luxo, com águas de tons de verde e azul, a viajante vai sabendo pelo taxista-guia.

José morou em Bruxelas por anos a fio e resolveu voltar à sua terra, depois dos filhos crescidos, "às vezes meio ingratos, pois", confessa quando a conversa desce para as paisagens pessoais.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O "desassossego" da viajante

 Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

"Ele queria me levar para uma viagem que, no fim das contas, seria apenas dele, uma viagem interior para as regiões desdenhadas da sua alma". Estefânia Espinosa, personagem de Trem Noturno para Lisboa, Pascal Mercier.





Ainda a andar sem rumo, pergunta daqui pergunta dali, a viajante toma 0 elétrico 28E para o Campo de Ourique, e já sabendo o que quer, vai dar na Casa de Fernando Pessoa, na rua Coelho da Rocha, 16.

O bairro é bonito, bem diferente do burburinho do Chiado e Bairro Alto. É área estritamente residencial.

 A Casa de Fernando Pessoa é a cuja, onde morou até morrer, em 1935, e depois que voltou para Lisboa, aos 17 anos, após ter vivido na África do Sul, com o padastro inglês.

A fachada é recoberta com seus poemas e se sobem degraus para descobrir, primeiro, uma réplica de seu quarto de dormir, com motivo marítimo, o mar sempre um companheiro fiel de Pessoa ("Todo cais é ums saudade de pedra"). As paredes são sua alma viva em pensamentos e as fotos de sua breve vida (nasceu em 1888).

A viajante se espanta porque é a única visitante, nem sequer um grupo de escolares em trabalho didático. Ali, em um largo espaço, mas em parco acervo, estão alguns objetos pessoais: piteiras, navalhas, pentes, óculos.

Não fora sua obra monumental, distribuída entre ele mesmo, Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e um heterônimo inglês, com o qual começou a publicar, dir-se-ia que Fernando Pessoa passou quase invisível pela vida, a julgar-se pela sua casa, reflexões bobas de uma viajante acostumada a bisbilhotar a vida íntima alheia, por vício de profissão.

Mas mais do que o homem, o que se guarda é sua obra, como o "Livro do Desassossego". Vasculhando-se sua imensa biblioteca no último andar da casa, nota-se o homem de seu tempo, com todas as obras significativas e mais. E ainda hoje a biblioteca está enriquecida com livros recentes, surpreendentemente a viajante vê os poemas de Arnaldo Antunes. A casa é um templo da alma humana de todos os tempos.

Melhor do que os dizeres dessa viajante, são os de Pessoa, por suas múltiplas personalidades:
"Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre à margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado" - Bernardo Soares (Livro do Desassossego).

"Ó sino da minha aldeia, dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma" - Pessoa

"Para ser grande, Sê inteiro:nada/ Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes. Assim em cada lago a Lua toda Brilha, porque alta vive" - Ricardo Reis.

Estrela
Para se ir ao Ourique, passa-se pela Estrela, onde há uma belíssima basília, da Estrela ou do Sagrado Coração e um parque muito agradável em frente.

A basílica é do século XIII, aquele que, junto com o XVII, Saramago não gostava, pelos exageros. Mas essa é especial, com uma fachada harmoniosa e um interior rico em mármores rosa, o que lhe dá um aspecto alegre, único. Ela é rica em arquitetura, pinturas e estatuária e há um presépio famoso.

Sua construção durou 10 anos, de 1779 a 1789 e foi uma promessa da rainha D. Maria I, para engravidar, como foi o Convento de Mafra e o desejo de D. João V de ter um herdeiro. Gastavam-se fortunas para ter filhos e surgia sempre uma obra de arte para nossos deleites atuais.

Para ter filhos hoje, quem não os consegue pelos modos tradicionais, paga uma inseminação artificial, bem mais barata do que as promessas antigas.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sons do mundo e coliseus

 Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


"A  vida não é aquilo que vivemos, é aquilo que imaginamos viver" - Trem Noturno para Lisboa, Pascal Mercier.

 


Da fachada, uma janela se abre para o céu

Ritchiele e sua estrela solitária

Todas cidades têm seus sons. Buzinas, gritos, apitos, altofalantes. Lisboa tem uma sonoridade suave, discreta, boa de se ouvir.

Em cada praça, ou paço, ou largo, como chamam, há um artista cantando, tocando.

No Largo do Carmo, depois de passar pelo Largo do Chiado e seus fadistas, roqueiros, folks, nas portas de lojas da rua Garret, a viajante deu com um cantor brasileiro. E ouviu Tim Maia, Belchior, Zé Ramalho.

Chega-se perto e o garoto está vestido com uma camisa da estrela solitária.
- "E essa camisa do Botafogo aí?"
- "Ah, não, não sou do Botafogo, essa é emprestada. Sou cruzeirense, uai!"

O que faz um mineiro numa praça de Lisboa?

- "Aprendi a tocar aqui, pensando em como haveria de ouvir as músicas brasileiras. Estou há quatro anos."

E abre um sorriso largo, maroto, como convém a um garoto chamado Ritiele, que pode ser que se escreva Ritchiele, assim, talvez uma homenagem de sua mãe, fã de Ritchie e sua "Menina Veneno".

Ruínas e coliseus
Mas a viajante foi mesmo rever as ruínas do convento do Carmo, ali no Largo, mas não entra, pois já o havia feito dias antes e não quer pagar mais.

Prefere sentar-se nas escadas em frente e ficar admirando a fachada que resistiu ao terremoto de 1755, a imaginar coliseus em Lisboa, ambos, o de Lisboa e o de Roma, lembranças em pedra de outros tempos

 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Enfim Saramago em seu museu

 Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Fachada da Casa dos Bicos

Saramago com Jorge Amado, entre outros
Alguns podem estar a se perguntar, por que, gostando tanto de José Saramago, há nove dias em Lisboa, a viajante ainda não havia ido vê-lo.

Pois foi ontem e se emocionou tanto que nem teve ânimo de escrever, mesmo porque teve outras emoções, na Casa de Fernando Pessoa, tema de postagem à parte.

Mas voltando a Saramago: lá está sua alma, na Casa dos Bicos, no Terreiro do Paço, por onde se chega de elétrico, de autocarro e a pé, dependendo da disposição de andar. Sua alma está do lado de dentro , espalhada na exposição permanente "José Saramago: a semente e os frutos"; e suas cinzas, de fora, debaixo de uma árvore plantada em frente, trazida de sua terra, Azinhaga.

A casa é um labirinto, mas há uma explicação: que o visitante encontre o caminho que quiser para chegar a Saramago.

A viajante vai passando pelas salas e enchendo os olhos de imagens e de lágrimas, ao descobrir os pequenos objetos dele: caderninhos de anotações, agendas, manuscritos, provas, revisões. Pensou que iria encontrar sua vida privada, como na casa de Neruda em Santiago do Chile e na de Valparaíso. Mas não. Encontra a mente e o coração do formidável português, seu companheiro não só de viagem, mas de tempos insones, de deleites diários.

O museu, casa onde ele nunca morou, como a de Fernando Pessoa ou a de Neruda, é um exemplo de modernidade: audiovisuais, telas de LCD pelas salas a exibir suas entrevistas, constantemente. E fotos, centenas. E os livros. Ah, os livros!

A viajante procura ansiosamente pelos seus preferidos, mas são todos; e surpreende-se por descobrir uma obra que achava conhecer completa, mas descobre outra: peças de teatro, livros infantis.

Vê com olhos do coração os manuscritos de "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "Evangelho segundo Jesus Cristo", "Memorial do Convento", para quê citar outros? Mas ainda Caim, ah, já próximo de seu fim, dá à humanidade Caim, alterego de muitos de nós, a questionar os desígnios de Deus e a criticá-lo.

Espia detalhadamente um painel de fotos, Saramago abraçado a Garcia Marques, a Vargas Lhosa, outros dois de seu coração. E uma fileira inteira de fotos com Jorge Amado, Zélia Gattai, Saramago na Bahia, no Pelourinho e por ali, de bermuda e chinelo.

De presente há uma exposição dos 100 anos de nascimento de Jorge Amado no 4º andar. Fotos e livros. Comovente. Na fachada da Casa dos Bicos, essa é a chamada principal, com imenso painel de Saramago e Jorge Amado.

Pouca gente em visita, mas a viajante vai e volta, a olhar e olhar e depois quer comprar algo, mas não se decide. Há uma coleção de seus livros editados pela editora Caminho, todas com bonita capa amarela, então leva "In Nomine Dei", porque lhe pareceu não o ter lido. Vai conferir mais tarde.

E vai-se embora com pesar no coração, porque acredita que gente como Saramago não devia morrer nunca, nem um pouco.

domingo, 16 de setembro de 2012

Domingo no litoral


Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Palácio da Pena, Sintra

Como todo mundo que mora perto de praia, domingo é dia de ir ver o mar. E esta viajante lá foi, com um início de dia meio nublado, dando pinta de que ia esfriar. Que nada! O calor voltou com força e lá pelas tantas, a calça comprida e o tênis incomodavam.
Jardins do Palácio de Queluz


Antes passou pelo Palácio de Queluz, residência dos Bragança e constatou que Saramago realmente tem 0jeriza por D. João VI e sua família, como manifestou no livro e já descrito aqui. A viajante concorda que era uma família feia, tanto que a segunda esposa de D. Pedro I nosso, IV aqui, Dona Amélia, , princesa de Leuchtenberg, quando ficou sabendo que iria se casar com ele, chorou três dias e três noites.

Mas o palácio é muito bonito. Não importa se é uma cópia do de Versailles, se se encomendou um arquiteto francês para fazê-lo, se seus jardins têm aquela simetria e se por dentro há o luxo clássico, nitidamente francês. É assim mesmo, nada se cria, tudo se copia e Portugal não seria nenhuma exceção, ainda mais cosmopolita que era, a fazer negócios com Américas e Índias, a relacionar-se com todas as casas nobres da Europa. Implicâncias inúteis de Saramago, porque já dizia Joãozinho Trinta, "quem gosta de pobreza é intelectual".

Em Sintra, já com um calor saariano, a cidade explode de turistas para ver o Palácio da Pena, cujo não tem nada dentro, mas está num parque sensacional, com vistas de tirar o fôlego, de quem ainda o tem, depois de subir, subir e subir. Esse sim, é uma miscelânia, com heranças mouriscas, acréscimos setecentistas e mais.

Lá ao longe, se vê o Castelo Mourisco, uma fortaleza de pedra, aonde  não levam os viajantes, porque o consideram feio. Era lá que a viajante queria ir, para ver se se parecia com o "Game of Trones", mas o tempo não chega, porque além do mais se tem de comer um travesseiro ou uma queijadinha na Periquita.

Por último, vai-se ao Palácio Nacional de Sintra, o mais feio, mas mais original, também com influência moura, como quase tudo na Península Ibérica, o que leva essa viajante a admirar mais os árabes, por terem vindo tão longe, por terem ficado por aqui por 800 anos. 

Mas um cearense que está a morar nas Arábias, disse que tempo não tem significado para eles, tudo é eterno, o que leva a outra reflexão: "tempo é uma invenção dos suíços para vender relógio".

Para Cascais, o guia acha bobagem a visita, o que a viajante não concorda. É um balneário muito bonito, coisa chique, dos tempos áureos da Europa, quando os bilionários iam e vinham entre Saint Tropez, Mônaco, Saint Moriz, Estoril, só no "laissez faire". Bons tempos, históricos, diante da crise que ora acomete não só Portugal e Espanha, mas outros europeus. E os ricos já nem podem mais viver seu glamour de direito.

Em Estoril, os viajantes, quatro brasileiros, fazem uma volta daquelas que Ayrton Senna fazia, quando corria por aqui e aqui morava. Não veem nada, porque o guia é um puto de um ex-hippie de anel de prata no dedo, cabelo desgrenhado, vegetariano e bandeirinha de pista no autódromo e "acha tudo isso um saco".

sábado, 15 de setembro de 2012

Museu do Azulejo e Alfama


Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Painel do Museu do Azulejo

No jardim do museu




Por causa da idiossincrasia de José Saramago com os templos setecentistas de sua terra, a viajante vai, neste sábado de 28 graus em Lisboa, atrás da Igreja do Menino-Deus, mais afeita aos moldes e modelos nacionais do escritor de "Evangelho Segundo Jesus Cristo".
"Crê-se ser a planta do edifício do arquiteto João Antunes, homem nada peco em sua arte, como se pode concluir olhando-se este magnífico edifício".

Então a viajante perde-se lá pelos lados de Alfama, à procura de um templo que pouca gente conhece. Ela, inclusive, ficou por conhecer, porque a exemplo dos monumentos no Norte de Portugal, que Saramago encontrava fechados, esse assim estava. Com uma diferença: não havia ninguém a quem pedir a chave, mesmo tocando  todos os botões do que pareciam ser campaínhas e de escutá-las do lado de fora.

Não perdeu a viagem, porque ganhou uma vista belíssima do mar, lá do Muro Mourisco, que faz parte da Igreja de Santa Luzia. E ainda tomou umas Sagres para comemorar a vida. Assim é.


Museus - O dia foi ganho, além disso, pela visita ao Museu do Azulejo, de pouquíssimos turistas, também chamado de "Casa Perfeitíssima". Mandado construir pela rainha d. Leonor, piedosíssima, conhecida também como "Raínha Perfeita", como mosteiro, em 1509, o sítio traz uma impressionante história do azulejo português, desde o século XV, até os dias atuais. Lá estão salas e mais salas com exemplos da arte, porque assim lhe pareceram à viajante os azulejos, em modelagens diversas, com inspiração sacra, histórica, mitológica e até profana.

A surpresa fica por conta da Capela de D. Leonor, uma pequena igreja riquíssima em exemplos dos Setecentos. Deve ser por isso que Saramago não a citou, mas para a viajante foi a coisa mais bela que viu até agora dos monumentos religiosos. E olha que a disputa é dificílima. A nave central está recoberta com soberbos azulejos com a história bíblica até a metade das paredes, e o resto todo recoberto for afrescos dourados, assim como o teto, altares, coro. Magnífico é pouco.

Há outras salas também opulentas, como a que possui um presépio e cujo chão é todo trabalhado em madeira minuciosamente decorada. Nos paineis do século XX e XXI, a viajante teve uma reminiscência, ora, pois, bairrismo, dos azulejos de Portinari, da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, Belo Horizonte.

Museu de Arte Popular - Citado por Saramago, que até mesmo sugeriu sua divisão em arte e ofício, o Museu de Arte Popular está em reformas, apenas uma sala funciona. Pobre coitado, que divide as atenções com o primo rico, que fica logo ali, o CCB, Museu Coleção Berardo.

O prédio é muito bonito, amplo, moderno. A coleção, por ter sido juntada aqui e ali, ao longo da vida do dono, é meio confusa. Misturam-se Andy Wahrol, Francis Bacon, Magritte, um Miró, um De Chirico, um Mondrian e um Max Ernst, o que indica que o Berardo era bastante eclético e generoso, pois, doou tudo para que o povo visse, gratuitamente.

Enfim, vai-se findando a primeira semana em Lisboa, já dominada em seus meios de transporte, em suas principais ruas e nos pontos principais. Hora de explorar os arredores.

Ainda Catedrais com Jerônimos

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Fachada do Mosteiro dos Jerônimos

O Mosteiro dos Jerônimos é tão bonito, tão magnífico, que merece uma postagem à parte. A viajante não segue uma ordem de visitas. Vai e volta, como melhor lhe apetece. Por isso, acorda disposta a ir a Belém, que fica mais longe e não dá para ir a pé. Toma o autocarro 758, perto de sua morada, desce no Cais Sodré e pega o elétrico 15. Desce nos Jerônimos.

O impacto é enorme, assim como o convento, todo rendilhado em pedra branca. Suas obras começaram em 1501, a mando do Rei D.Manuel I, e nós, mal acabávamos de nascer.
Lá estão muitos reis enterrados, muitos homeageados e a igreja e capelas são primores de decoração de outros séculos, o que em nada retira seu brilho. Pelo contrário, cria aquela mistura de opulência, de que nós, que não somos versados em artes, só admiramos.

Há túmulos de reis, de escritores (Camões) e navegadores (Vasco da Gama) E Alexandre Herculano, em cujo túmulo está gravado " Dormir? Só dorme o frio cadáver que não sente. Alma voa e se abriga aos pés do Onipotente".

Menos grandioso, já em estilo moderno, é o túmulo de Fernando Pessoa:  "Para ser grande, sê inteiro, nada. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive"- Ricardo Reis, 1933. Ambos estão no segundo piso do claustro.
Dentro da igreja há capelas luxuosas, como a da Sagrada Família, uma Nossa Senhora e um São José vestidos ricamente, o que justifica o dito bíblico, de "os últimos serão os primeiros", nem que seja em riquezas e posses.

No Capítulo, parte superior do claustro, há uma exposição com paineis de reis portugueses, em que não figura nosso D.João VI,  e a recepcionista, sonolenta, não sabe explicar o porquê. Também não lhe interessa. O rei que fugiu de sua terra de mala e cuia e deixou os súditos entregues à própria sorte contra Napoleão, não goza de muitos afetos, já o confirma Saramago: ..."pois vá e vença a antipatia que sente por dois reis que lá viveram (Palácio de Queluz), aquele D. João VI e aquela D.Carlota Joaquina, senhora de mau porte, intriguista e ainda por cima feia como uma noite de trovões".


Já naquele sítio, a viajante, com um calor de conquistas portuguesas em África, vai ao Monumento do Descobrimento e à Torre de Belém e dessa vez, resolve subir a escadinha em caracol, que tem trocentos degraus. Aliás, tudo por aqui tem quantidades fartas de degraus a subir e ainda se paga por isso!