terça-feira, 9 de outubro de 2012

Correndo por Berlim


Ponte Kramer em Erfurt

No país da tecnologia, a Alemanha, (ou seria o Japão? Ou a Coreia? Ou a India?), tenho de pagar pela internet no quarto do hotel, mas neste, em Berlin, o Ramada, nem isso, porque não tenho cabo. Então escrevo no Word, desço para o lobby, onde tem  wifi e copio o texto no blog.
Não é uma boa maneira de começar a falar de Berlim. Então vamos ao que interessa, mas a viajante aconselha a quem a segue, que se quiser saber sobre Berlim, vá a um sítio na internet. Já foi dito aqui que esse não é um blog de dicas, orientações, que a viajante é das mais desorientadas que já conheceu. É de impressões, de descobertas.
Então, passeando por Berlim, por todos aqueles lugares turísticos de nomes impronunciáveis, a não ser o Muro, a Alexanderplatz, o Sony Center e a Porta de Brandenburgo, com nomes mais ou menos, percebe-se que os berlinenses estão com um pé no passado e outro no futuro.
Não se sabe se é indecisão, se é nostalgia, mas o pé no passado se reflete nas duzentas mil obras de restauração, reconstrução, que fazem da cidade um campo de escavação arqueológica completa, parece. Ou a própria escavação, depois de 1945 e de ter sofrido o ataque de 48 mil bombas, que caíram diariamente sobre a cidade, durante oito meses. A cidade ficou um escombro só, com quase 80% de sua área destruída. Mas isso todo mundo já sabe, de tanto ver em filmes, de ler em livros e de séries de TV.
O pé no futuro está nos edifícios ultramodernos, que fazem da cidade a referência maior em arquitetura na Europa. Tem de tudo: edifícios totalmente ecológicos e até um todo de vidro, prestem atenção, autolimpante, sonho de consumo de toda dona de casa.
Então como se ia dizendo, Berlim vive em obras, parece tatu. E obras gigantes. E para fazê-las tem de drenar o subsolo, que é água pura, pura no outro sentido, não sei se deu para entender. E para isso, instalam uns tubulões cor de rosa aéreos, uma beleza! Dizem as más línguas que é homenagem do prefeito, homosexual assumido.
Mas não se deve visitar Berlim sem conhecer a história da cidade, da Alemanha, e antes dessa, dos quatro reinos germânicos, Prússia, Baviera, e os outros dois que já se esqueceu, aí está um bom motivo para irem à internet pesquisar.
É uma cidade muito antiga, medieval, mas que não tem praticamente nada do original, tudo é reconstrução, o que não invalida o esforço e é bonito do mesmo jeito, cada qual supera os traumas de seu jeito e uns o transformam em bens para a humanidade.
Já se falou que a Alemanha é inteiramente ecológica, a começar por seu território, 33% de florestas. Em Berlim há parques por todos os lados e o maior e mais bonito é o Tiergasen, no coração da cidade. Está com todos os tons de outono espalhados por suas árvores.
Berlim é uma cidade que não dá para se ver em menos de uma semana. Nessas visitas de médico só dá para ver mesmo o que restou do Muro, em uma parte todo com obras de artistas famosos da época da queda, em 1989. E em outro trecho, cercado por um alambrado de tela, para que os “picapaus”, aqueles que tiravam souvenirs para vender aos turistas, não acabassem com o resto. Ah, ironia! Uma cerca para cercar o muro que cercava uma parte da cidade! Assim é a vida e a história das cidades.
Museu do Pérgamo – E como não é possível nem de longe dar uma espiada nos diversos museus, escolhe-se por preferência, não por ser o mais importante ou famoso da cidade. E quando o tema é arqueologia, tem de ser o Pérgamo. É lá que está o Altar de Zeus, inacreditável monumento de mármore, em tamanho natural, remontado como foi encontrado na cidade do mesmo nome da Turquia, mas que pertencia ao império grego. Tem que ser visto, assim como a Porta de Mileto, outra obra, só que do século II, D.C, enquanto o Altar é de dois séculos A.C. A Porta foi trasladada da cidade de Mileto, na Ásia Menor, pedaço por pedaço e remontada, ao lado de restos de esculturas romanas, como um busto de Adriano.
O percurso é completado com a sala com o Portal de Ishtar da Babilônia, inacreditável em sua remontagem de cerâmica colorida (azul, ocre, branca e verde). E vestígios de escrita cuneiforme, inventada pelos cujos que ocuparam a Mesopotâmia, hoje Iraque. Uma réplica do Código de Hamurábi, num obelisco negro de tamanho natural. E centenas de peças, como joias, objetos de uso doméstico, esculturas. Pena que se tem de ver tudo na carreira.
Depois disso, os olhos para o palácio de Charloterburg e para a Catedral Don ficam menos alargados, mas não fechados. É preciso ver cada qual em sua dimensão, se não fora a ventania gelada que atrapalha um pouco o vaivém dessa uma, que já está com a garganta inflamada e se esqueceu de trazer uma pastilha sequer e um antigripal.
Erfurt – Antes de chegar a Berlim, a viajante passou por Erfurt, conhecida como a cidade da Teologia, pois aqui nasceu e viveu Lutero que virou o catolicismo de ponta cabeça, ao escrever suas contestações acerca de determinados dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana, uma delas, a proibição  de os padres se casarem. Lutero pegou a Bíblia e primeiramente a traduziu do latim para o alemão e aí começou a ver que lá não tinha nada daquelas proibições que o papa impunha e tal e começou a reclamar. Reclama daqui, reclama dali, prega papel na porta das igrejas, reúne gente e de repente era um rio incontrolável, a Reforma
Mas as igrejas de Erfurt, que é uma cidade dos séculos XIII e XIV, foram originariamente católicas e depois viraram protestantes, após Lutero, mas não retiraram as imagens dos altares e nem desmontaram nada. Graças a deus, sem trocadilhos, porque por isso se pode ver uma especialmente bela, a San Severino, do século IX, que foi beneditina.
E foi em Erfurt também que a viajante viu pela primeira vez, apesar de ouvir falar que há delas por toda a Europa, uma ponte com muitas casas construídas sobre ela, quase a tampá-la, não fosse a gente dar a volta para vê-la pela lateral e não de frente, porque assim é uma rua comum. É a Ponte Kramer.
O tempo já está mais frio desde que se saiu de Frankfurt e mesmo com o sol saindo um pouquinho à tarde, já não se pode prescindir dos casacos acolchoados e cachecóis, que brasileiro não pode ver um ventozinho que já acha que é neve que vem por aí, imagina, no outono! Mas não se pode confiar mais no clima, quem sabe?