segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Budapeste realista

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Budapeste sob a neblina
Budapeste com sol

E de repente Budapeste não é mais impressionista, mas realista, porque seu clima câmbia da noite para o meio dia e sai um sol e um céu azul de morrer.

Então vai-se para o Parlamento e é aquele deslumbramento de matar de inveja os colegas da Assembleia da viajante, porque têm de trabalhar naquele prédio assim assim, e o daqui é luxo só, porque quem gosta de miséria é intelectual, dizia Joãozinho Trinta.
Parlamento à noite, fachada vista do Danúbio
À noite, o prédio pode ser visto do Rio Danúbio, feericamente iluminado, mais do que Torre Eiffel, porque é maior para os lados e é impossível não se apaixonar. Por dentro é mármore rosa, arcos, abóbodas, colunas, tudo em escala maior, mania de grandeza desses húngaros.

E tem a sala da Coroa Sagrada, cuja não é possível entender direito, ainda que a guia repita mil vezes que é ela, coroa, que manda no país, no povo, no rei se esse houvera, mas é primeiro-ministro e manda nesse também. A coroa tem mil anos e manda assim até hoje, imagina quando era criança birrenta e adolescente rebelde!
E ali embaixo é o local de trabalho das excelências

Mas o Parlamento, com toda sua magnificência, está na mira do governo, que quer reduzir o número de parlamentares dos atuais 386 para menos, não se sabe quantos, porque eles dão muita despesa, assim é mundo afora. Os parlamentares são muitos, considera o governo, porque o país só tem 10 milhões de pessoas, fazer o quê todos os 386 para tão poucas gentes? E ainda ganham seis vezes mais do que quem ganha o salário mínimo, 120 mil florins, e 720 mil as excelências, o povo húngaro não conhece o Brasil.

Mercado e São Estêvão - Depois é fazer a maratona para conhecer o mercado, muito interessante como o são os mercados mundo afora, mas este é todo de metal, do Eiffel, já se disse. E conhecer a Basílica de Santo Estêvão, a maior e mais importante do país, mas ao invés de começar a visita pelas vantagens dos húgaros, uma aloprada guia começa pela Virgem de Czestochowa, da Polônia, aquela negra, não de  cor, mas pelo material onde foi desenhada por São Lucas, e a mulher disse que foi São João, preferida de João Paulo II, vá-se entender os critérios de una, a viajante perde a paciência e desgarra-se.

Depois vai ao prédio da ópera, assunta aqui e ali e fica na entrada, para não ter de pagar.
E volta ao Castelo Distrital, onde estivera no dia anterior, debaixo de garoa e neblina e maravilha-se com a paisagem de Buda, lindamente encarapitada em suas colinas, com suas histórias de bispos Gerardos atirados em barris do alto do morro, na parte mais alta; a Cidadela, onde a polícia tinha umas muralhas, século XIX, que aqui nada é antigo, apesar das origens lá pelos anos 800 da Era Cristã.
O Café mais bonito do mundo
Café New York - Mas sentar-se à tardinha no café New York, tomar um capuccino e comer uma torta de maçã e baunilha, não tem preço. Aliás tem, 15 euros. Mas está-se no "mais bonito café do mundo", comprova-se a publicidade, pelo luxo interior, coisa dos tempos da "belle èpoque", faltou ver entrar aquela condessa decadente húngara do "Casablanca". Veludos vermelhos, espelhos e lustres de cristal, dourados nos adornos. E a imagem de João e Antônio apreciando muito a beleza do lugar.

E vale mais uma vista d'olhos no Danúbio à noite e nos castelos e imaginações iluminados, que amanhã é outro dia de sonhos.

Danubio à noite



Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Depois se acrescentam as fotos de ontem e de hoje, e os acentos, porque de um teclado em húngaro, língua que é única, nem anglo, nem saxônica, nem românica, mas agora é preciso aproveitar-se o tempo.

O que dizer de um passeio pelo Danúbio à meia-noite? Que se vai dar com o Conde Vlado, o Drácula, logo ali na curva poderia parecer imprecisão geográfica, mas não é, pois a Transilvânia, de onde veio o Drácula, era parte do território húngaro até pouquíssimo tempo, perdida naquelas bicadas que os vizinhos deram daqui e dali, como já se disse, dessa vez Romênia no ataque e é goool. 

Assim é o deslizar-se pelo Danúbio à noite, com palácios, torres e o Parlamento, que alumbramento, luzes e muito. Não tem como não divagar, "a vida é bela", Roberto Benigni, e depois silêncio na valsa de Strauss.

Charda - Mete-se a viajante por uns matos afora, não sozinha, afinal é noite em Budapeste, com aquela garoa insistente, atravessa um bosque que deve ser bonito de dia, de noite vê-se pouco e chega numa dessas casas de shows para turistas e acontece de tudo. Comilança como num fim de guerra na tenda de uma tribo nômade húngara qualquer. E bebidas, uma cachaça fortíssima, chamada palinka, 50 graus no mínimo, entende-se aí parte do modus operandi desse povo. E música e dancas, completo o bacanal está.

Qual a impressão de Budapeste? Povo único, que não é cigano como de crianças pensávamos, mas da Asia Central, que se juntaram aqui nestas terras em outras eras, por acharem o clima muito bom, isso porque nao conheciam o Brasil. E falam a língua lá deles, dificílima, com seus 14 fonemas e 17 declinações, já pensou o que é isso?
http://www.youtube.com/watch?v=foQpms3L9gU