quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O "desassossego" da viajante

 Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

"Ele queria me levar para uma viagem que, no fim das contas, seria apenas dele, uma viagem interior para as regiões desdenhadas da sua alma". Estefânia Espinosa, personagem de Trem Noturno para Lisboa, Pascal Mercier.





Ainda a andar sem rumo, pergunta daqui pergunta dali, a viajante toma 0 elétrico 28E para o Campo de Ourique, e já sabendo o que quer, vai dar na Casa de Fernando Pessoa, na rua Coelho da Rocha, 16.

O bairro é bonito, bem diferente do burburinho do Chiado e Bairro Alto. É área estritamente residencial.

 A Casa de Fernando Pessoa é a cuja, onde morou até morrer, em 1935, e depois que voltou para Lisboa, aos 17 anos, após ter vivido na África do Sul, com o padastro inglês.

A fachada é recoberta com seus poemas e se sobem degraus para descobrir, primeiro, uma réplica de seu quarto de dormir, com motivo marítimo, o mar sempre um companheiro fiel de Pessoa ("Todo cais é ums saudade de pedra"). As paredes são sua alma viva em pensamentos e as fotos de sua breve vida (nasceu em 1888).

A viajante se espanta porque é a única visitante, nem sequer um grupo de escolares em trabalho didático. Ali, em um largo espaço, mas em parco acervo, estão alguns objetos pessoais: piteiras, navalhas, pentes, óculos.

Não fora sua obra monumental, distribuída entre ele mesmo, Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e um heterônimo inglês, com o qual começou a publicar, dir-se-ia que Fernando Pessoa passou quase invisível pela vida, a julgar-se pela sua casa, reflexões bobas de uma viajante acostumada a bisbilhotar a vida íntima alheia, por vício de profissão.

Mas mais do que o homem, o que se guarda é sua obra, como o "Livro do Desassossego". Vasculhando-se sua imensa biblioteca no último andar da casa, nota-se o homem de seu tempo, com todas as obras significativas e mais. E ainda hoje a biblioteca está enriquecida com livros recentes, surpreendentemente a viajante vê os poemas de Arnaldo Antunes. A casa é um templo da alma humana de todos os tempos.

Melhor do que os dizeres dessa viajante, são os de Pessoa, por suas múltiplas personalidades:
"Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre à margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado" - Bernardo Soares (Livro do Desassossego).

"Ó sino da minha aldeia, dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma" - Pessoa

"Para ser grande, Sê inteiro:nada/ Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes. Assim em cada lago a Lua toda Brilha, porque alta vive" - Ricardo Reis.

Estrela
Para se ir ao Ourique, passa-se pela Estrela, onde há uma belíssima basília, da Estrela ou do Sagrado Coração e um parque muito agradável em frente.

A basílica é do século XIII, aquele que, junto com o XVII, Saramago não gostava, pelos exageros. Mas essa é especial, com uma fachada harmoniosa e um interior rico em mármores rosa, o que lhe dá um aspecto alegre, único. Ela é rica em arquitetura, pinturas e estatuária e há um presépio famoso.

Sua construção durou 10 anos, de 1779 a 1789 e foi uma promessa da rainha D. Maria I, para engravidar, como foi o Convento de Mafra e o desejo de D. João V de ter um herdeiro. Gastavam-se fortunas para ter filhos e surgia sempre uma obra de arte para nossos deleites atuais.

Para ter filhos hoje, quem não os consegue pelos modos tradicionais, paga uma inseminação artificial, bem mais barata do que as promessas antigas.