sábado, 15 de setembro de 2012

Museu do Azulejo e Alfama


Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Painel do Museu do Azulejo

No jardim do museu




Por causa da idiossincrasia de José Saramago com os templos setecentistas de sua terra, a viajante vai, neste sábado de 28 graus em Lisboa, atrás da Igreja do Menino-Deus, mais afeita aos moldes e modelos nacionais do escritor de "Evangelho Segundo Jesus Cristo".
"Crê-se ser a planta do edifício do arquiteto João Antunes, homem nada peco em sua arte, como se pode concluir olhando-se este magnífico edifício".

Então a viajante perde-se lá pelos lados de Alfama, à procura de um templo que pouca gente conhece. Ela, inclusive, ficou por conhecer, porque a exemplo dos monumentos no Norte de Portugal, que Saramago encontrava fechados, esse assim estava. Com uma diferença: não havia ninguém a quem pedir a chave, mesmo tocando  todos os botões do que pareciam ser campaínhas e de escutá-las do lado de fora.

Não perdeu a viagem, porque ganhou uma vista belíssima do mar, lá do Muro Mourisco, que faz parte da Igreja de Santa Luzia. E ainda tomou umas Sagres para comemorar a vida. Assim é.


Museus - O dia foi ganho, além disso, pela visita ao Museu do Azulejo, de pouquíssimos turistas, também chamado de "Casa Perfeitíssima". Mandado construir pela rainha d. Leonor, piedosíssima, conhecida também como "Raínha Perfeita", como mosteiro, em 1509, o sítio traz uma impressionante história do azulejo português, desde o século XV, até os dias atuais. Lá estão salas e mais salas com exemplos da arte, porque assim lhe pareceram à viajante os azulejos, em modelagens diversas, com inspiração sacra, histórica, mitológica e até profana.

A surpresa fica por conta da Capela de D. Leonor, uma pequena igreja riquíssima em exemplos dos Setecentos. Deve ser por isso que Saramago não a citou, mas para a viajante foi a coisa mais bela que viu até agora dos monumentos religiosos. E olha que a disputa é dificílima. A nave central está recoberta com soberbos azulejos com a história bíblica até a metade das paredes, e o resto todo recoberto for afrescos dourados, assim como o teto, altares, coro. Magnífico é pouco.

Há outras salas também opulentas, como a que possui um presépio e cujo chão é todo trabalhado em madeira minuciosamente decorada. Nos paineis do século XX e XXI, a viajante teve uma reminiscência, ora, pois, bairrismo, dos azulejos de Portinari, da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, Belo Horizonte.

Museu de Arte Popular - Citado por Saramago, que até mesmo sugeriu sua divisão em arte e ofício, o Museu de Arte Popular está em reformas, apenas uma sala funciona. Pobre coitado, que divide as atenções com o primo rico, que fica logo ali, o CCB, Museu Coleção Berardo.

O prédio é muito bonito, amplo, moderno. A coleção, por ter sido juntada aqui e ali, ao longo da vida do dono, é meio confusa. Misturam-se Andy Wahrol, Francis Bacon, Magritte, um Miró, um De Chirico, um Mondrian e um Max Ernst, o que indica que o Berardo era bastante eclético e generoso, pois, doou tudo para que o povo visse, gratuitamente.

Enfim, vai-se findando a primeira semana em Lisboa, já dominada em seus meios de transporte, em suas principais ruas e nos pontos principais. Hora de explorar os arredores.

Ainda Catedrais com Jerônimos

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Fachada do Mosteiro dos Jerônimos

O Mosteiro dos Jerônimos é tão bonito, tão magnífico, que merece uma postagem à parte. A viajante não segue uma ordem de visitas. Vai e volta, como melhor lhe apetece. Por isso, acorda disposta a ir a Belém, que fica mais longe e não dá para ir a pé. Toma o autocarro 758, perto de sua morada, desce no Cais Sodré e pega o elétrico 15. Desce nos Jerônimos.

O impacto é enorme, assim como o convento, todo rendilhado em pedra branca. Suas obras começaram em 1501, a mando do Rei D.Manuel I, e nós, mal acabávamos de nascer.
Lá estão muitos reis enterrados, muitos homeageados e a igreja e capelas são primores de decoração de outros séculos, o que em nada retira seu brilho. Pelo contrário, cria aquela mistura de opulência, de que nós, que não somos versados em artes, só admiramos.

Há túmulos de reis, de escritores (Camões) e navegadores (Vasco da Gama) E Alexandre Herculano, em cujo túmulo está gravado " Dormir? Só dorme o frio cadáver que não sente. Alma voa e se abriga aos pés do Onipotente".

Menos grandioso, já em estilo moderno, é o túmulo de Fernando Pessoa:  "Para ser grande, sê inteiro, nada. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive"- Ricardo Reis, 1933. Ambos estão no segundo piso do claustro.
Dentro da igreja há capelas luxuosas, como a da Sagrada Família, uma Nossa Senhora e um São José vestidos ricamente, o que justifica o dito bíblico, de "os últimos serão os primeiros", nem que seja em riquezas e posses.

No Capítulo, parte superior do claustro, há uma exposição com paineis de reis portugueses, em que não figura nosso D.João VI,  e a recepcionista, sonolenta, não sabe explicar o porquê. Também não lhe interessa. O rei que fugiu de sua terra de mala e cuia e deixou os súditos entregues à própria sorte contra Napoleão, não goza de muitos afetos, já o confirma Saramago: ..."pois vá e vença a antipatia que sente por dois reis que lá viveram (Palácio de Queluz), aquele D. João VI e aquela D.Carlota Joaquina, senhora de mau porte, intriguista e ainda por cima feia como uma noite de trovões".


Já naquele sítio, a viajante, com um calor de conquistas portuguesas em África, vai ao Monumento do Descobrimento e à Torre de Belém e dessa vez, resolve subir a escadinha em caracol, que tem trocentos degraus. Aliás, tudo por aqui tem quantidades fartas de degraus a subir e ainda se paga por isso!