segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Borrego e alheira


Alheira à Mirandela
E para completar a volta pelas comidas, aí vai a "alheira", que a Elvira insistiu para a viajante provar.

Provou e está passando mal até agora, embuchada. Não achou um sonrisal.

A "alheira" é um linguição grosso, sem segundas intenções, de borrego, mas que na hora de fritar perde a capinha (a tripa, na qual é feita) e fica molinha por dentro, porque leva bastante azeite. É muita carne misturada, por isso é uma comida forte.

A viajante comeu hoje, num prato chamado "Alheira à Mirandela", esta, uma cidade lá do Norte português, que Saramago passou de passagem, mas citou a ponte sobre o rio Tua, que "que tem 20 arcos, nenhum igual, se é coisa dos romanos, seus primeiros construtores, ou preciosismo de alguma reforma do século XVI" (página 31).

A "Alheira à Mirandela" vem com a própria, umas batatinhas fritas, uma saladinha e um lindo ovo frito em cima. Metade do prato ficou com a comida, porque a viajante achou muito forte, embora tenha comido todo o ovo, que o aprecia muito, independente de colesterois.

E foi andar bastante pelo parque da Fundação Calouste Gulbenquian, depois de constatar que o museu de lá estava fechado, por ser segunda-feira, e descobrir um sítio muito giro e cheiroso, até de figo sentiu cheiro, e também para ver se a sensação de bigorna no estômago passava.

Borrego à estrela


Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Borrego à estrela
Viajar sem provar os sabores dos lugares não tem a menor graça. Por isso, mesmo que não goste de alguns ingredientes, a viajante vai experimentando daqui e dali. E o resultado tem sido positivo.

Portugal não é só bacalhau, como pensam os brasileiros. O borrego é carne do dia a dia. De todas as formas: linguiças, cubos, costelinhas, bifes (dos quais se faz a tradicional "bifana", sanduíche de pão com o próprio, ao qual se pode acrescentar tomate e alface, para ficar parecido com um hambúrguer, o Mac Donald já descobriu).

Então, além dos bacalhaus às natas, ao grão de bico, ao Zé do Pipo e na brasa, a viajante enveredou pelas carnes de porco, apesar de não gostar muito. E não se arrependeu.

Em um passeio cheio de culpas, pelos imensos gastos, a viajante foi às compras no sábado (29), no Freeport, dito o maior outlet da Europa. Saramago não aprovou, claro, mas a viajante foi assim mesmo.

É um lugar muito bonito, dentro de suas artificialidades, como fontes diversas, cascatas cantantes, coqueirais e claro, as Herrera, Burberry, Versacci, Gabanas e aquela currumaça de esportivas, Adidas, Puma, Asics. Quem conhece essa uma, sabe que foi aquele estrago. Mas a lua ao entardecer valeu a pena.

Mas eis que no andar de cima, vê-se lá cozinha tradicional alentejana. E a viajante foi lá e pediu o prato do dia: borrego à estrela.
Foi aquele susto ao chegar o prato, até muito giro: pedacinhos de carne de porco, afinal borrego é isso, bem temperadinhos no molho de tomate e algumas ervas, cercado de batatas fritas e umas conchinhas tamanho médio, abertas, com azeitonas pretas bem por cima. E como arremate cheiro verde.

A viajante afastou correndo as conchinhas, fingiu que nem viu, tomou um longo golo do verde de Alentejo, não sabe qual, porque é o vinho da casa, deve ser aqueles de garrafão, sangue de boi, só que anêmico, porque era branco e não vermelho.

E c0meu feliz seu borreguinho, muito bom por sinal.

O soberbo Zé do Pipo
Zé do Pipo - Em assuntos de bacalhaus, o melhor não foi o do Trindade e nem o do João do Grão, decantados em verso e prosa. 
Foi o do Forcado, casa de Fados que fica bem na sua vizinhança, na rua da Rosa, Bairro Alto, mas pelo qual pagou os olhos da cara, 51 euros, também teve aquela amostra de fado e dança típica, deve ser isso que eles cobram.

Um Zé do Pipo, que não é igual àqueles de Recife, que tanto comemos quando Taís ainda por lá morava. Nada de bacalhau desfiado, ou em cubos, ou em pedaços pequenos cheios de azeite e batata e pimentão vermelho.

O Zé do Pipo do Forcado é uma beleza: vem num prato de cerâmica, retirado diretamente do forno, um lombo dourado, sob uma cama de purê de batatas, mas não um purê qualquer, um enfeitado por um desenho rendilhado. E entre um e outro (purê e o bacalhau), as natas. Ah, as natas, que gosto dão! E para não ficar parecendo que essa uma ficou pedante, natas são nosso creme de leite, só que aqui elas são frescas. E enfeitando, umas tirinhas de pimentão vermelho, dá até pena de comer.
Pão com chouriços

Pão com chouriços - Mas na hora que a fome aperta e não se tem nada por perto, um pão com chouriços vai muito bem, comeu-o ontem no Cabo Espichel, distante de tudo. Um pão delicioso, como são bons os pães daqui, com linguiça ao molho de tomate, às vezes o chouriço como recheio de última hora, às vezes assado diretamente com o pão.

A viajante não dá receitas porque não as tem. E depois cada qual que faça ao seu modo, seguindo os ingredientes citados, por exemplo, Zé do Pipo, lombo de bacalhau, purê de batatas que todo mundo sabe fazer, e uma camada de creme de leite entre o purê e o bacalhau.

Borrego à estrela é mais difícil, onde arranjar aquelas conchinhas unidinhas nas duas partes, para se abrir e servir de cama para a azeitona preta, ostra com sua pérola negra do Pacífico Sul?