quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Catedrais na despedida

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...
Vitrais da Sé

"Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso de sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo.
Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência ridícula das marchas. Amo as pessoas que rezam. Preciso de sua imagem. Preciso dela contra o veneno traiçoeiro do supérfluo e da negligência. Quero ler as poderosas palavras da Bíblia. Preciso da força irreal de sua poesia. Preciso dela contra o abandono da linguagem e a ditadura das palavras de ordem. Um mundo sem essas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver." - Trem noturno para Lisboa, Pascal Mercier -


São Vicente de Fora
Uma das capelas de São Roque
Fachada da Sé de Lisboa
E para se despedir de Lisboa, nessa primeira etapa, a viajante vai andando e dá numa igreja que ainda não havia visto, bem perto de sua casa. É a Igreja das Mercês, das dez ou doze que viu somente na região histórica da cidade. Lisboa deve ter para mais de 50, só das históricas e sem contar a região metropolitana.


Basílica da Estrela
Nossa Senhora das Mercês teve construção iniciada em 1615, mas como tudo em Lisboa, foi reerguida depois do terremoto de 1755, então não resta muito desse século XVII, a maior parte hoje é de 1780, novo para os portugueses, antigo para os brasileiros. Mas a planta, em forma de cruz latina é original. É muito bonita, a viajante acha especialmente a Capela de Nossa Senhora da Apresentação. E como não poderia deixar de ser, há muitos azulejos.

Vai descendo e dá em outra igreja, não por acaso, mas por informação da senhorinha que está ali na secretaria das Mercês. "Já fostes à Santa Catarina, ah, pois, está logo ali abaixo, na rua dos Combos".

Na entrada acha a Santa Catarina meio escura, em comparação com a brancura e brilho das Mercês. E lá, no folheto distribuído gratuitamente, fica sabendo que a igreja é de 1680, estilo barroco português, o joanino, que Saramago tanto fala. Há pinturas giríssimas, atribuídas a Vieira Lusitano e Joaquim Manoel da Rocha, os Mestres Athaides daqui, certamente mestres do nosso mestre das igrejas de Ouro Preto e Mariana, Minas Gerais, por precedências de muitos e muitos anos.

É interessante na Capela do Santíssimo, uma Nossa Senhora chamada la Antígua, com uns traços daquelas imagens bizantinas, queria perguntar a viajante o que era, como era e por que era, mas não achou a quem.

Com isso ficou encerrado o périplo pelas igrejas que passou pela Sé Catedral, Santa Engrácia, Igreja dos Italianos, Encarnação, Mártires, São Vicente de Fora, Basílica da Estrela e São Roque, só dentro de Lisboa, fora as de Setúbal, Évora, Sesimbra, Sintra, Fátima, Batalha, Alcobaça.

Não há como não se converter, diria um, se preciso fosse, emenda essa uma, ou se salvar, aí sim, convencida de que é preciso.

Amanhã segue para Amsterdã, onde começa seu circuito profano, ou nem tanto, já que em Praga vai, com muito gosto, ver o Menino Jesus.