domingo, 23 de setembro de 2012

Ney espetacular em Lisboa

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...




Ney, eternamente sensual



Praça do Comércio

À espera do show, duas horas antes

Arco da Rua Augusta, no centro da praça
 Ney Matogrosso é universal, constata esta viajante, ao assistir ao show dele, ontem, na Praça do Comércio. Praça grande, enorme, como as "plaza mayor" disseminadas por toda a Espanha, e que estava lotada. E não eram só brasileiros, pelos sotoques em volta.

Ney, o melhor intérprete do Brasil, do mundo, não, do planeta, melhor, da galáxia, é capaz de despertar paixões, ainda agora aos 70 anos. Aquela ginga de quadris característica desde os tempos de Secos e Molhados, ainda arranca assobios, aplausos, uhuus, suspiros, lindo, gostoso, tira a roupa.

Mas ele está mais comedido como convém à idade e faz um show romântico, perfeito na escolha das músicas, arranjos musicais, iluminação, cenários.

O público aguardava aquele Ney irreverente, que fizesse um pequeno strip tease, mas ele se limitou a brincar com o paletó de Ocimar Versolato, arregaçando as mangas da camisa, vagarosamente, criando suspense e afrouxando a gravata. O povo foi ao delírio.

Ney está melhor do que nunca, e esta viajante não se importa de exagerar nos adjetivos. Não tem culpa se o artista é seu intérprete preferido (não melhor cantor, este é Caetano). É que o segue há mais de 40 anos, quando o viu pela primeira vez, num festival meio lama, meio Woodstock, no Serra Verde, Belo Horizonte, que ainda era um descampado com o hipódromo, lá pelos 70 e poucos, tempos de faculdade.

Monobloco
E para não ser injusta, a viajante conta a explosão de alegria que foi a apesentação do Monobloco, meia hora depois. A galera foi à loucura, de pé, dançando, cantando. Muita gente que estava bem ali na frente, como esta uma aqui, que chegou duas horas antes para pegar um bom lugar, teve de subir nas cadeiras, porque a meninada gosta de show é em pé.

E de quebra, o Ney ainda voltou ao palco e cantou com a rapaziada do Monobloco, "Pro dia nascer feliz" e um forrozinho "Aí o pau come".

Sábado na Feira da Ladra

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Nesse sábado de "a-toísse", privilégio de quem não está de passagem rápida por Lisboa, a viajante vai para Alfama. Desce no Largo das Portas do Sol, depois de pegar o elétrico 28, entupido. Mas ali ainda não é Alfama. Volta à Igreja Menino Deus, mas ela continua fechada.

Então pergunta para um morador, sentado à porta de casa, se a Alfama está perto. "Tá, pois, meta-se ali à direita, siga os trilhos do elétrico. Já fostes à Feira da Ladra? Hoje é dia, só terça e sábado. É perto".

Lá se foi, descendo, descendo e dá na igreja de São Vicente de Fora. Atrás fica o Largo da Ladra.

Entra pelo arco lateral e quase volta: "a Feira da Ladra é uma roubada", escuta Naiara a falar em sua lembrança, porque ela não está ali, mas no Brasil.

Só porque é um indistinguível comércio de roupas e trecos usados, ali na entrada, com uma mulher oriental, talvez indiana, talvez marroquina, a berrar: "ropa é unheiro" (um euro, entenda-se).

Mas Naiara  é assim mesmo, e a viajante ignora o comentário que poderia ter sido também "é um mercado de pulgas e não de antiguidades, como o de Santelmo, em Buenos Aires". E a viajante passeia aqui e ali, nas diversas ruas onde a feira se espraia.

Tem de tudo, roupas e calçados velhos e sujos, eletrodomésticos antigos e quebrados, revistas, jornais, gravuras, velhos. Uma ou outra louça antiga, se calhar.

Muita bugiganga, como em mercados de pulgas, até no da Lagoinha, quando existia, por isso a viajante prossegue com olhar atento. E vê uma barraca com máquinas fotográficas antigas, as lomos, uma reflex de estúdio.

Ah, o olho treinado descobre algo: livros, muitos livros. Novos, velhos, talvez raros. Mas não dá para comprar nada, a viajante pensa no peso das malas e se senta a um boteco (esta palavra não existe por aqui). E come uma feijoada, com duas cervejas, coisas de "A Cantina", da brasileira Selma.

Um dia de Feira da Ladra foi suficiente. Naiara tem razão.

E enfim perde-se nos becos da Alfama, como Saramago, e acaba perto da Alfândega, onde é obrigada a tomar um sorvete, mesmo muito satisfeita com a feijoada, porque o calor está demais!

Pela madrugada, cai uma tempestade e a temperatura em Lisboa começa a mudar: uma brisazinha e um sol menos inclemente. Já não era sem tempo