terça-feira, 6 de novembro de 2012

Adeusinho




Lisboa, com Pessoa
"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras pessoais. A viagem acontece quando acordamos fora do nosso corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa". Mia Couto


Praga
Palácio Schombrum, Viena
Ao final, nem Saramago, nem Pascal Mercier, Mia Couto me socorre nessa última postagem. E também abandono a dissertação na terceira pessoa e volto para a primeira, protagonista de meus passos dois meses países afora.

Esse não vai ser mais um blog abandonado, vai ser um blog encerrado, aqui, agora, porque o objetivo, a busca pelo passado através de uma viagem por Portugal, e no meio, uma viagem dentro da primeira, chegou ao fim.

Apesar de ter sido uma busca pessoal, a viagem foi um encontrar permanente de novidades, de surpresas, que acabaram dando o tom dos textos, mais do que a descrição de lugares, o que não era o mote de Viagem com Saramago.

E como blog de observações, de peculiaridades, de impressões sobretudo, Viagem cumpriu seu papel, me parece. Não foi um blog sobre viagens, foi de sentimentos e sensações. Por isso, a referência constante a comidas, a situações inusitadas, à história.
Coliseu, Roma

Tive vários acompanhantes na viagem, por um motivo ou outro, a quem agradeço a paciência, o interesse, as observações enviadas quase nunca no blog, mas no e-mail pessoal da viajante, ops, olha o vício aí.
Tive o privilégio de excelentes companhias pessoais e virtuais.
Muro de Berlim, restos
E para não perder o costume, termino com uma citação de Fernando Pessoa, a demonstrar que os livros foram e serão sempre minha melhor viagem.

"Gosto de dizer.
Direi melhor:
gosto de palavrar"

Adeusinho

Gracias a la vida



segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Santa Maria da Feira, busca finita

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...
garante a Benvinda, que aí viveu o avô Joaquim

Uma certidão de óbito põe fim à busca original dessa viajante. Rosa Dias, morta em 14 de setembro de 1974, aos 88 anos, não deixou herdeiros. Era absolutamente só, desde que seu marido, Joaquim, se foi para o Brasil, em 1908. Os olhos dessa uma lacrimejam e enternecerem ou constrangerem a atendente da Conservatória dos Registros Civis de Santa Maria da Feira, Portugal. Então ela sugere outras buscas, outros locais para continuar a pesquisa, buscar os parentes perdidos, um passado em suspenso. Mas há o momento de parar, como em Eclesiastes, “há momento de rir e há momento de chorar; de plantar e de colher”, e “entre os dois é o homem”, completa a poeta paulista Renata Pallotini. É preciso sossegar os que já morreram e os que ainda não.

Entrada de Tarei, ao lado da casa de Benvinda



Então, deixa-se para trás a Conservatória, a ideia fixa de descendentes ou ascendentes, depende de onde se vê a coisa e vai-se passear pela medieval Feira, que tem um castelo do século XI, modelo de fortaleza da região Norte de Portugal. Foi a partir dessa fortaleza, que Feira aliou-se a D. Afonso Henriques, aquele que unificou o país e expulsou os mouros, numa guerra contra a própria mãe D. Teresa, defensora da união com Castela. O castelo tem alterações que indicam sua ocupação ao longo dos anos e guarda vestígios de povos muito mais antigos como romanos e antes desses, outros.
O castelo está dentro de um bosque no alto de um morro, onde está também o Convento dos Lóios e o museu municipal. O convento teve construção iniciada nos quatrocentos e sua igreja só foi terminada cem anos depois, ô paciência. Das origens está ali a capela do Espírito Santo. A matriz é dedicada a São Nicolau e não apresenta grandes luxos barrocos, apenas uns poucos retábulos dourados.
O museu é singelo. Começa com vestígios arqueológicos do paleolítico, o que enche de expectativa essa uma, entre eles, potes, adornos em pedra, armas. Mas aí mistura com coisas medievais e representações de ofícios, como teares, manufatura da cortiça, o que, no entanto, não chega a comprometer o entendimento, pela mistura e desordem museológicas, já que é pequeno e simples.

Castro de Romariz, com chuva e um taxita-fotógrafo

Castro de Romariz - Pertencente à cidade, mas na vila vizinha de Romariz, está o castro do mesmo nome. Mas o quê é um castro afinal, pergunta-se essa ignorante de nomes arqueológicos. E encontra um fenomenal sítio antiquíssimo, datado de 900 a 700 A.C, última fase da Era do Bronze. São os vestígios, em pedras ainda assentadas como moradias, de um povoado fortificado que sobreviveu até o século I, D.C. Não é fantástico? E a ida até lá foi uma verdadeira expedição: a viajante e o taxista que não conhecia bem o lugar, e sobe morro, pergunta é por ali, por ali não é, até que se dá com o caminho, já dentro de uma mata fechada. A viajante disposta a dar meia volta, mas o taxista Rangel enche-se de brios e acha uma subidinha, última etapa íngreme, a pé, pulando pedras. O esforço vale a pena, ao dar-se com aqueles círculos, retângulos, quadrados de murinhos de pedra, do que foi uma cidade talvez, quem saberá, apesar dos estudos, fizeram teste de Carbono 14? não tem a quem perguntar.
Há outros castros no Norte, alguns na própria região de Santa Maria da Feira, em Fiães e outros mais acima, visitados e descritos por Saramago, em seu livro Viagem a Portugal, que a viajante aconselha, a essa altura, quem ainda não a tenha feito, a leitura. É uma forma diferente de se ver o próprio país.
E para não faltar, está o encontro com as comidas locais. Depois de deixar a Conservatória, onde descobriu que o avô, Joaquim, não havia deixado aqui nenhum filho, a viajante para no restaurante Belo Horizonte, a pensar em homenagens a outras terras distantes, que nada, e pede o menu do dia, uns peixitos fritos, menores de que sardinhas, chamados “joaquinzinhos”, Ai, ironia! E de experimentar o doce local, a fogaceira, que depois de tantos doces ótimos país afora, achou especialmente sem-graça, um pãozinho meio doce, sem nada, a  não ser o formato de castelo.
Enfim é Santa Maria da Feira, que tem um festival chamado Viagem Medieval em agosto, quando toda a cidade traveste-se daqueles tempos e atrai milhares de visitantes; e um pulo à freguesia do Souto, ver a igreja onde Joaquim foi batizado, onde casou, antes de ter-se casado com a avó da viajante, vai gostar de casar assim. E finalmente chegar a Tarei, encontrar Benvinda, a senhora que sabe das estórias do lugar, e onde Joaquim morou até os 21 anos, antes de meter na cabeça a ideia de que tinha de ir buscar outros mares, riquezas, sonhos, a herança fica para alguns netos.


 E flagrar-se um final de tarde, com por do sol a invocar fotografias, e sentir o coração sossegar finalmente, porque uma das buscas é finita. Mas há sempre outra e outra e outra...

Nada será como antes

sábado, 3 de novembro de 2012

Cigana em Aveiro

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Passeio no moliciero, pela Ria de Aveiro

A Aveiro das rias, conhecida como a Veneza do Norte de Portugal, recebe a viajante com uma praga lançada por uma cigana, que a segue aqui e ali, com aquela lamúria, dá-me 20 cêntimos, senhora, esmola com valor definido. Não dá e por isso toma uma praga numa língua que depois fica-se a saber que é dos povos nômades da Romênia, representante aquela com o maior brio.
Mas que importa a praga, não entende a língua e o rogo, e vai passear na parte histórica da cidade e calha de encontrar um dia de velharias, como aqui chamam as feiras de antiguidades nas ruas, a lembrar a de Santelmo em Buenos Aires,  espalhada por uma miríade de ruazinhas barrocas. Espia daqui, assunta dali, a mão coçando, loiças lindas e antigas, relógios em caixinhas douradas, uma boneca dengosa sobre uma almofada de renda, mas a mala já abarrotada, resiste.
Barco na Ria- Vai então para a rua do canal central, fazer o que todo mundo faz, ainda mais num domingo com sol, apesar do friozinho. O barco todo colorido, é o moliceiro, a lembrar que originalmente foram barcos destinados ao recolhimento do moliço, espécie de alga que servia de adubo. E foram barcos salineiros também, Aveiro tradição em sal, e ovos moles, o doce todo de gema e açúcar, com uma camada fina de uma hóstia a envolvê-lo, ai meu jesusinho.
É bom andar ali pela ria, assim chamado o conjunto de braços que os rios Vouga, Antuã, Boco e Fontão fazem quando estão quase a desaguar no Atlântico. E no canal passar sob a ponte de metal, de 1904, também do Gustave Eiffel, eita homem danado para semear obras . E sob a ponte dos Carcavelos, de 1945,  com o brasão da cidade, a mais bonita. Os barcos têm barqueiros que cantam, raramente, como os gondoleiros de Veneza, e essa uma deu a sorte de encontrar um com uma voz especialmente forte e bonita, que cantou três fados e quase deixa o barco bater na amurada, empolgação de amadores, cantor, não barqueiro.
Museu - O Museu de Aveiro é outra visita obrigatória. Tem uma coleção riquíssima de arte sacra, sobretudo esculturas, desde o século XV, mesmo período de grande parte das pinturas. O museu está nas dependências do antigo Convento de Jesus, da ordem dominicana feminina, onde viveu e morreu Santa Joana, a santa princesa, filha que era de D. Afonso V.
Há toda uma parte dedicada a Santa Joana, como a sala de Lavor, preciosa obra de rendilhado dourado. Há também a Capela do Senhor dos Passos, bem como o claustro, com o refeitório praticamente original.
A capela do convento propriamente é magnífica em exageros de oiro, o que se destaca ainda mais por suas pequenas proporções. A viajante achou que já tinha visto uso duvidoso das riquezas do Portugal quinhentista e seiscentista, na Igreja de São Francisco em Porto, mas em Aveiro, em menor dimensão, lá estão os dinheiros que o país ganhava em seus comércios pelo mundo conhecido e na exploração das riquezas de suas colônias. Enfim, decisões de dirigentes, a que os povos miúdos não têm acesso, Mas pelo menos há o consolo de que foram para a glória de Deus, que hoje estão ao alcance de todos e não para uns poucos bolsos, como acontece com frequência, em algumas terras em épocas recentes.
Há uma pintura de Santa Joana, cultuadíssima, e que ilustra o folder da exposição permanente, com uma cara emburrada, dizem que por zanga de estar a posar para o retrato atrai marido, que ela não queria e que recusou em três ocasiões. E para não perder o hábito, visitar uma igreja, a da Misericórdia, simples e bonita.
Sem história antiga, mas muito próprio para o ócio, é o boulevar do shopping Fórum de Aveiro. A viajante vai seguir uma placa com essa indicação achando que se trata de um monumento e dá com o shopping. Não é má visita, afinal o sítio é mesmo aprazível, com calçadas, bancos e pontezinhas margeando um dos braços do Canal do Côjo.
De fazer dó é o estado de abandono do prédio da antiga estação de comboios, bem ao lado da nova, que não é uma obra especialmente histórica, mas tem um revestimento em painéis de azulejos azuis a contar a história da região, como o trabalho dos salineiros, dos pescadores, a primeira confeitaria, é difícil agradar inteiramente à viajante, há que se ressaltar sempre algo fora do lugar,  língua desmesuradamente grande, percebe-se.
Mas há também o flagrar-se de um final de tarde, com um início de lua sobre o canal, meio escondida no prédio que fica com suas bases dentro da água, descanso para os dias longos de viagem, alegria para os olhos e o coração.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Porto, luxo e riqueza

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...




Passeio pelas pontes do Douro


Ribeira - Andar pela Ribeira, ruas estreitas, apertadas, escuras,

apesar do lindo sol e céu azul, é sonhar com a história da cidade, o Rio

Douro e suas enchentes, seus vinhos, riqueza e luxo, decadência e
]
redenção, Suzanne Chantal em Ervamoira, livro que fez a viajante

amar a cidade sem tê-la visto jamais.

E agora vê e renova seus amores, ainda que não tenha ido à Ribeira à

noite passear ali beira do rio de tantas histórias e tantas dores

causadas pelas enchentes antigas, dissuadida de ir em sítios tão

escuros, sozinha, por três passantes a quem a uma pediu informações.

Mas passeia-se de manhã pela rua dos Canastreiros, da Reboleira,

praça da Ribeira e vê-se ali o comércio antigo dos vinhos exportados

para Inglaterra, as adegas, Ervamoira na cabeça.

O Porto é também o passeio pelo Douro, vendo todas as pontes, D.

Luis, Dona Maria, que é do Gustave Eiffel, dono dos artefatos de metal

espalhados Europa afora e não só a torre.

O Porto, visto do lado de cá,de Vila Nova de Gaia


Vila Nova de Gaia - É passar para o lado de lá, Vila Nova de Gaia,

que lindo nome para uma cidade, a visitar a cave da Ferreira e sua

dona Antônia, estórias de passado, seria ela a mulher do Ervamoira,

pergunta a viajante com sua curiosidade indiscreta, não, não é.

E passar pelo porto de Leixões, hoje só mercantil, a imaginar um

pobre imigrante a sair dali, em 1908, vindo de uma aldeola chamada

Tarei, a pegar  um navio da Mala Real Inglesa, vindo de Southampton,

na Inglaterra.

Livraria Lello - Mas é também fazer uma meia maratona para

encontrar a Livraria Lello, junto com um casal curitibano maluco, que

despenca rua acima, rua abaixo, a viajante botando os bofes pela boca

e eles nem tchuns, são bicicleteiros, ou bugeiros, já que aqui bicicleta

é buga. E chegar a tempo de ver a lindeza de livraria, com uma escada

em concha toda vermelha, os degraus abrindo feito leque para um

lado e para o outro, mas que não se pode fotografar, porque isso, as

fotografias do lugar, eles vendem.

Riqueza e luxo – E ainda visitar o Palácio da Bolsa, a de valores,

que pertence à Associação Comercial e ver como a opulência povoa as

cabeças. Umas salas muito ricas, um piso em madeira machetada,

que essa uma admira demais. E o  grand finale, a sala árabe,

milimetricamente recoberta de oiros, afrescos vermelhos, azuis, do

teto ao chão, para impressionar bem os visitantes que faziam negócios

no Porto, principalmente as gentes de Lisboa, para quem os daqui

queriam mostrar que eram muuuito mais ricos.


Luxo também na Igreja de São Francisco, logo ao lado, 300 quilos de

ouro em retábulos, colunas, rococós, estátuas, coitado de São

Francisco, tão pobrezinho. Mas explica-se que a igreja originalmente

não era assim e foi o povo do século XVIII, os novos ricos, sempre,

como ainda hoje, exibicionistas e incultos, que faziam doações para a

igreja em forma de adornos. Algumas partes estão ali nuas, pedra

crua, a mostrar que era franciscanamente humilde, como convinha ao

seu santo.



Mas a vida é assim, passam-se os anos, cada qual com seus

pensamentos, seus gostos de época e assim se faz a história dos povos,

e tudo é válido, a expressar os costumes e vivências de cada época.


Adeus Porto, onde ao final, a viajante passeia sem rumo, com uma

paulista das antigas, frágil,que quase toma um tombo, e sentam-se na

Confeitaria Majestic, a mais antiga, bonita e famosa da cidade e finge-

se por pequenos tempos, que se é rico, nobre como Chantal descreve.