segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Santa Maria da Feira, busca finita

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...
garante a Benvinda, que aí viveu o avô Joaquim

Uma certidão de óbito põe fim à busca original dessa viajante. Rosa Dias, morta em 14 de setembro de 1974, aos 88 anos, não deixou herdeiros. Era absolutamente só, desde que seu marido, Joaquim, se foi para o Brasil, em 1908. Os olhos dessa uma lacrimejam e enternecerem ou constrangerem a atendente da Conservatória dos Registros Civis de Santa Maria da Feira, Portugal. Então ela sugere outras buscas, outros locais para continuar a pesquisa, buscar os parentes perdidos, um passado em suspenso. Mas há o momento de parar, como em Eclesiastes, “há momento de rir e há momento de chorar; de plantar e de colher”, e “entre os dois é o homem”, completa a poeta paulista Renata Pallotini. É preciso sossegar os que já morreram e os que ainda não.

Entrada de Tarei, ao lado da casa de Benvinda



Então, deixa-se para trás a Conservatória, a ideia fixa de descendentes ou ascendentes, depende de onde se vê a coisa e vai-se passear pela medieval Feira, que tem um castelo do século XI, modelo de fortaleza da região Norte de Portugal. Foi a partir dessa fortaleza, que Feira aliou-se a D. Afonso Henriques, aquele que unificou o país e expulsou os mouros, numa guerra contra a própria mãe D. Teresa, defensora da união com Castela. O castelo tem alterações que indicam sua ocupação ao longo dos anos e guarda vestígios de povos muito mais antigos como romanos e antes desses, outros.
O castelo está dentro de um bosque no alto de um morro, onde está também o Convento dos Lóios e o museu municipal. O convento teve construção iniciada nos quatrocentos e sua igreja só foi terminada cem anos depois, ô paciência. Das origens está ali a capela do Espírito Santo. A matriz é dedicada a São Nicolau e não apresenta grandes luxos barrocos, apenas uns poucos retábulos dourados.
O museu é singelo. Começa com vestígios arqueológicos do paleolítico, o que enche de expectativa essa uma, entre eles, potes, adornos em pedra, armas. Mas aí mistura com coisas medievais e representações de ofícios, como teares, manufatura da cortiça, o que, no entanto, não chega a comprometer o entendimento, pela mistura e desordem museológicas, já que é pequeno e simples.

Castro de Romariz, com chuva e um taxita-fotógrafo

Castro de Romariz - Pertencente à cidade, mas na vila vizinha de Romariz, está o castro do mesmo nome. Mas o quê é um castro afinal, pergunta-se essa ignorante de nomes arqueológicos. E encontra um fenomenal sítio antiquíssimo, datado de 900 a 700 A.C, última fase da Era do Bronze. São os vestígios, em pedras ainda assentadas como moradias, de um povoado fortificado que sobreviveu até o século I, D.C. Não é fantástico? E a ida até lá foi uma verdadeira expedição: a viajante e o taxista que não conhecia bem o lugar, e sobe morro, pergunta é por ali, por ali não é, até que se dá com o caminho, já dentro de uma mata fechada. A viajante disposta a dar meia volta, mas o taxista Rangel enche-se de brios e acha uma subidinha, última etapa íngreme, a pé, pulando pedras. O esforço vale a pena, ao dar-se com aqueles círculos, retângulos, quadrados de murinhos de pedra, do que foi uma cidade talvez, quem saberá, apesar dos estudos, fizeram teste de Carbono 14? não tem a quem perguntar.
Há outros castros no Norte, alguns na própria região de Santa Maria da Feira, em Fiães e outros mais acima, visitados e descritos por Saramago, em seu livro Viagem a Portugal, que a viajante aconselha, a essa altura, quem ainda não a tenha feito, a leitura. É uma forma diferente de se ver o próprio país.
E para não faltar, está o encontro com as comidas locais. Depois de deixar a Conservatória, onde descobriu que o avô, Joaquim, não havia deixado aqui nenhum filho, a viajante para no restaurante Belo Horizonte, a pensar em homenagens a outras terras distantes, que nada, e pede o menu do dia, uns peixitos fritos, menores de que sardinhas, chamados “joaquinzinhos”, Ai, ironia! E de experimentar o doce local, a fogaceira, que depois de tantos doces ótimos país afora, achou especialmente sem-graça, um pãozinho meio doce, sem nada, a  não ser o formato de castelo.
Enfim é Santa Maria da Feira, que tem um festival chamado Viagem Medieval em agosto, quando toda a cidade traveste-se daqueles tempos e atrai milhares de visitantes; e um pulo à freguesia do Souto, ver a igreja onde Joaquim foi batizado, onde casou, antes de ter-se casado com a avó da viajante, vai gostar de casar assim. E finalmente chegar a Tarei, encontrar Benvinda, a senhora que sabe das estórias do lugar, e onde Joaquim morou até os 21 anos, antes de meter na cabeça a ideia de que tinha de ir buscar outros mares, riquezas, sonhos, a herança fica para alguns netos.


 E flagrar-se um final de tarde, com por do sol a invocar fotografias, e sentir o coração sossegar finalmente, porque uma das buscas é finita. Mas há sempre outra e outra e outra...

Nada será como antes

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