sábado, 3 de novembro de 2012

Cigana em Aveiro

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Passeio no moliciero, pela Ria de Aveiro

A Aveiro das rias, conhecida como a Veneza do Norte de Portugal, recebe a viajante com uma praga lançada por uma cigana, que a segue aqui e ali, com aquela lamúria, dá-me 20 cêntimos, senhora, esmola com valor definido. Não dá e por isso toma uma praga numa língua que depois fica-se a saber que é dos povos nômades da Romênia, representante aquela com o maior brio.
Mas que importa a praga, não entende a língua e o rogo, e vai passear na parte histórica da cidade e calha de encontrar um dia de velharias, como aqui chamam as feiras de antiguidades nas ruas, a lembrar a de Santelmo em Buenos Aires,  espalhada por uma miríade de ruazinhas barrocas. Espia daqui, assunta dali, a mão coçando, loiças lindas e antigas, relógios em caixinhas douradas, uma boneca dengosa sobre uma almofada de renda, mas a mala já abarrotada, resiste.
Barco na Ria- Vai então para a rua do canal central, fazer o que todo mundo faz, ainda mais num domingo com sol, apesar do friozinho. O barco todo colorido, é o moliceiro, a lembrar que originalmente foram barcos destinados ao recolhimento do moliço, espécie de alga que servia de adubo. E foram barcos salineiros também, Aveiro tradição em sal, e ovos moles, o doce todo de gema e açúcar, com uma camada fina de uma hóstia a envolvê-lo, ai meu jesusinho.
É bom andar ali pela ria, assim chamado o conjunto de braços que os rios Vouga, Antuã, Boco e Fontão fazem quando estão quase a desaguar no Atlântico. E no canal passar sob a ponte de metal, de 1904, também do Gustave Eiffel, eita homem danado para semear obras . E sob a ponte dos Carcavelos, de 1945,  com o brasão da cidade, a mais bonita. Os barcos têm barqueiros que cantam, raramente, como os gondoleiros de Veneza, e essa uma deu a sorte de encontrar um com uma voz especialmente forte e bonita, que cantou três fados e quase deixa o barco bater na amurada, empolgação de amadores, cantor, não barqueiro.
Museu - O Museu de Aveiro é outra visita obrigatória. Tem uma coleção riquíssima de arte sacra, sobretudo esculturas, desde o século XV, mesmo período de grande parte das pinturas. O museu está nas dependências do antigo Convento de Jesus, da ordem dominicana feminina, onde viveu e morreu Santa Joana, a santa princesa, filha que era de D. Afonso V.
Há toda uma parte dedicada a Santa Joana, como a sala de Lavor, preciosa obra de rendilhado dourado. Há também a Capela do Senhor dos Passos, bem como o claustro, com o refeitório praticamente original.
A capela do convento propriamente é magnífica em exageros de oiro, o que se destaca ainda mais por suas pequenas proporções. A viajante achou que já tinha visto uso duvidoso das riquezas do Portugal quinhentista e seiscentista, na Igreja de São Francisco em Porto, mas em Aveiro, em menor dimensão, lá estão os dinheiros que o país ganhava em seus comércios pelo mundo conhecido e na exploração das riquezas de suas colônias. Enfim, decisões de dirigentes, a que os povos miúdos não têm acesso, Mas pelo menos há o consolo de que foram para a glória de Deus, que hoje estão ao alcance de todos e não para uns poucos bolsos, como acontece com frequência, em algumas terras em épocas recentes.
Há uma pintura de Santa Joana, cultuadíssima, e que ilustra o folder da exposição permanente, com uma cara emburrada, dizem que por zanga de estar a posar para o retrato atrai marido, que ela não queria e que recusou em três ocasiões. E para não perder o hábito, visitar uma igreja, a da Misericórdia, simples e bonita.
Sem história antiga, mas muito próprio para o ócio, é o boulevar do shopping Fórum de Aveiro. A viajante vai seguir uma placa com essa indicação achando que se trata de um monumento e dá com o shopping. Não é má visita, afinal o sítio é mesmo aprazível, com calçadas, bancos e pontezinhas margeando um dos braços do Canal do Côjo.
De fazer dó é o estado de abandono do prédio da antiga estação de comboios, bem ao lado da nova, que não é uma obra especialmente histórica, mas tem um revestimento em painéis de azulejos azuis a contar a história da região, como o trabalho dos salineiros, dos pescadores, a primeira confeitaria, é difícil agradar inteiramente à viajante, há que se ressaltar sempre algo fora do lugar,  língua desmesuradamente grande, percebe-se.
Mas há também o flagrar-se de um final de tarde, com um início de lua sobre o canal, meio escondida no prédio que fica com suas bases dentro da água, descanso para os dias longos de viagem, alegria para os olhos e o coração.