Coloquei Saramago (Viagem a Portugal) e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...
Entrar na igreja de Santa Maria Maggiore, ao lado mesmo da estação de trens de Roma e ouvir um pequeno grupo de fiéis e três padres celebrando uma missa e cantando em português do Brasil, numa das capelas laterais provoca um conflito. Sta Maria é mais bonita que a Basílica de São Pedro?
É um pergunta retórica que a viajante se faz, ao sentir que na primeira se está num templo sagrado, com padres ali no confessionário à espera de sua confissão, com a luzinha vermelha ou verde, a indicar o ocupado e o desocupado. Encontrar uma freira que pergunta se essa uma conhece Bom Despacho, em Minas, "vêssipódi, uai, óprocevê", porque a família tem uma casa lá, a da freira. E ainda tocar a mão de Jesus, na Porta Sagrada.
Na Basílica está-se num monumento, mesma sensação quando se entra em Santa Engrácia, Lisboa, panteão nacional, mais do que igreja.
São Pedro é maravilhosa, com tantas obras de arte, aquele baldaquino ao centro sobre o túmulo de São Pedro, bonze dourado do exuberante Bernini, enorme a apontar para o céu. E a Pietá, Michelângelo, logo ali na entrada, linda, linda, a lembrar outra em uma capela de hospital. Mas não há calor, não há espírito religioso ou fé. Só admiração. E já é muito, que é o que tem que ser, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Sistina - Essa uma já não se lembrava mais dos museus vaticanos e foi por ali, seguindo a boiada, imensa que é, de gente fuçando o passado. Entra sala, sai sala, das Tapeçarias, dos Mapas, e só andando e sobe, sobe, sobe, desce, desce, desce e oh! oh! oh!, é a Capela Sistina e o Juízo Final. Michelangelo sem juízo. Mas atenção, é preciso olhar com a lente zoom da câmara fotográfica, para se ver os detalhes, os dedos quase se tocando, imagem mais recortada e difundida, união de mundos a um toque de dedos. E o guarda a fazer psiu, xiiii, psiiiuuu, como se fora possível admirar em silêncio.
E visitar o Castelo de Santo Ângelo, logo ali perto, admirando a quilométrica muralha de um legítimo burgo medieval, hoje guardando um bairro da cidade. Subir as escadarias pretas, escuras, pedra pura e sair nos terraços e ter a melhor vista de Roma e do Vaticano, com o Rio Tibre bem ali na porta. Sto Ângelo foi residência do Papa Paulo III, lá pelos 1500 e tem uns afrescos de Adriano, o coitado todo esquartejado e espalhado por meia Roma, se fosse inconfidente seria Tiradentes. Há um pedaço de Adriano por toda parte, um busto, um retábulo do mausoleu, mas a Vila Adriana está alí, em Tívoli, já fora de Roma, dizem que linda, pouquissimamente visitada, incluindo essa uma, que perdeu o tour para lá por questão de um dia.
A Praça deEspanha é outro ponto que todas as gentes vão, cuja não tem nada de mais, só a escadaria para sentar e descansar e tomar fotos, com a Trindade Sagrada lá no fim ou começo das escadas e a Dior e a Prada no pé.
E por fim, a Fontana de Trevi, novamente e novamente, à noite, será que a viajante está com desejos? e tomar um gelatti. Eis Roma, com o coração.