segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Dar no Cais Sodré

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Esta viajante foi dar no Cais Sodré hoje. Explico. Descendo, descendo lá pelas bandas do Chiado, pergunto a uma passante: para onde é o Cais?
"Meta-se aí abaixo, ah pois, e vais dar no Sodré'".
Vou nada.
E fui descendo até dar com o rio luminoso. Imagino o impacto do Infante D. Henrique, o Navegador, lá pelos anos do século 14, ao ver o Tejo ali. "Ai, pá, devem ser os mares nunca dantes navegados", numa imprecisão histórica, não menos que poética.

É o mar Tejo, que os portugueses insistem em chamar de rio, mesmo sabendo que ali é o mar já engolindo as águas doces. É bonito de ver. De ver a gente que fica ali, fora os turistas, só jogando conversa fora, sentada numas poltronas móveis, de material  plástico, com uma árvore plantada no meio. Lá longe o mar estranho, as grandes navegações, as américas e índias por descobrir.

A viajante anda que nem uma mula hoje. Sobe ao Jardim do Príncipe Real, seu vizinho, passa pelo Museu de Ciências, fica um tempão na Conservatória dos Registros Gerais e depois vai descendo, dá com o Parque Eduardo VII, o Central Park de Lisboa. Mas como estava muito deserto, com uns tipos estranhos, vai-se embora logo.

Passa pela Praça Marquês de Pombal, onde está  imortalizado em monumental estátua, o reformador do estado português. Continua andando, pelo Rossio, novamente pelo Chiado e volta do cais. Poderia escrever um "Guia de Lisboa a Pé", se tivesse se lembrado de anotar o nome de todos os lugares onde passou, onde parou, comeu. Mas Saramago também se esqueceu de anotar, apesar de o esquecimento dele ter virado um livro.

Pobre dessa viajante. Distraída, esquecida, confusa. Ah, pois, e esquecendo coisas por todo lado.
Por isso tem de comprar um carregador de câmera fotográfica e um leitor de cartão, tudo universal, como disse o homem, por 72 euros, porque mais não tinha e o homem deixou por menos.  E ainda perguntou se o carregador universal era do Paraguai. O homem não entendeu, peculiaridades de nossos portugueses falados e intuídos.