quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A transitoriedade da vida

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Nem comidas nem pontos turísticos, hoje só reflexões que a viajante faz, depois de ter deixado sua mala de brasileiro (apelido que dão nos EUA, por causa do tamanho e do exagero de compras) na casa de uma moça que acabou de conhecer em Lisboa.

E já explica: com a ida para outras paisagens, onde Saramago interfira menos, a viajante resolve deixar uma mala para trás, buscar depois, quando retornar a Portugal em fins de outubro, afinal abandonar Saramago é só "um tempo na relação". Ela o ama mesmo quando ele está intratável, coisas de todos nós que temos dores ocultas. E ainda tem muita estrada para ver, o Norte, por exemplo, onde nasceu seu avô, razão de sua busca.

A viajante conhece uma moça num salão de beleza e fala da mala e a moça, que é brasileira, casada com um açoriano, oferece-se para guardar o saco de brasileiro. Combinado tudo, hoje foram à casa e essa uma teve um choque grande.

A casa é um improviso, como é a vida de muitos imigrantes. Hoje se está aqui, amanhã já não mais. Assim é que o marido dela vai para a Noruega, porque não teve o contrato de trabalho renovado.

A crise ecnômica pega aqueles com pouca ou nenhuma formação acadêmica. Nem ela, nem ele, entao têm de ir aonde o emprego está, parodiando Fernando Brandt e Milton Nascimento.

Sua casa é transitória: mobílias, roupas, objetos que nem são pessoais. E vai-se vivendo um dia em Açores, outro em Portugal, outro na Noruega. Não há laços, não há casa, não há família, não há lugar.

A vida é que é intermitente e não a morte, recorda-se agora a viajante, puxando Saramago pelo braço, para lembrá-lo do livro que tanta estranheza lhe causou, As intermitências da Morte.

A vida é suspensa, é leveza insustentável no ar, Milan Kundera emenda.

E a viajante vai-se embora dali, do Rato, sem saber se verá sua mala de brasileiro de volta, afinal também tanta mala, o caráter, o juízo são insustentáveis, imponderáveis.

Vamos ver o que acontece nos próximos dias, longe de Portugal. A viagem prossegue, porque, afinal, o caminho para dentro é irreversível, para ficar nas palavras do impermanente.