Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a descrição na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...
![]() |
| Sé de Lisboa |
![]() |
| São Vicente de Fora |
Hoje foi um dia muito bom que começou pelas catedrais e acabou num jantar delicioso no João do Grão, na Rua dos Correeiros, 200, perto do Rossio, indicação da minha colega Joana do Nascimento, da ALMG. Um bacalhau honesto, às natas e um vinho verde. Estupendo!
Antes, a viajante teve a grata satisfação de passar na Polícia do Turista e reaver sua carteira "marrom de oncinha", intacta, não fora a falta dos 100 euros e 190 reais. Mas o que é isso, diante da trabalheira que seria fazer três documentos brasileiros novamente? A viajante filosofou que afinal de contas, seu ladrão era das antigas, com ética, porque só ficou com seu dinheiro e devolveu os documentos.
Seguindo Saramago, a viajante teve um dia de catedrais, porque é como Amadeo do Prado, do livro do suíço Pascal Mercier. Não pode prescindir delas. Herança talvez de sua formação cristã em Oliveira, interior de Minas Gerais, onde o ponto alto da vida eram sempre as festas religiosas. Fora os três anos de estudos no colégio de freiras.
Então começou, a conselho de Saramago, pela Sé Patriarcal de Lisboa, a Igreja de Santa Maria Maior, da 2ª metade do século XII, com alguns quadros preciosos, como a Veneração de São Vicente e a Libertação de Frei Sancho, ambos de Amaro do Vale, de 1614. É, a igreja sofreu intervenções posteriores, o que irritava o escritor português. Mas a visita só vale a pena se se for ver o claustro e o Tesouro, ao custo de 4 euros. O primeiro é pontilhado por capelas onde predominam santos estranhos, como uma Nossa Senhora da Tocha, com uma cabeça pelada. O destaque é para a Capela de Santa Maria Maior, riquíssima em madeira policromada e ouros. Há um presépio muito bonito, de 1766. Subindo-se infinitas escadas, visita-se o Tesouro, coleção de objetos sacros, doirados, mantos, pálios, cálices, etc. Barroco e barroco português, o que mais uma vez é motivo de discórdia entre a viajante e Saramago. Esse prefere o românico, por despojado. Esta prefere o festival de cores e adereços do setecentismo e oitocentismo, são suas origens mineiras.
Igreja de São Nicolau - Do século XVIII, 1755, não esteve no roteiro de Saramago, mas como dei com ela por ali, entrei. Tem uma abóboda toda pintada e muita cantaria, além de um Senhor dos Passos, não tão grandioso e dramático como o da Igreja dos Passos, de Oliveira, mas ainda assim perfeito em sua dor.
Santa Engrácia - Essa foi mandada construir em finais do século XVI, pela infanta Dona Maria. É toda branca, muito bonita com suas enormes cúpulas sobre a colina. Mas a surpresa é que se trata de um panteão nacional, onde estão enormes túmulos de autoridades e figuras ilustres, um desperdício de mármore, sem os respectivos ossos, e uns poucos santos. Mas é um lugar muito interessante, com sua nave redonda, em mármore variado no piso e suas cinco cúpulas em mármore rosa. Dá para visitar o coro, onde há uma exposição diferente para este tipo e local, contemporânea; e sair ao seu terreço, onde a vista é preciosa
Igreja de São Vicente de Fora - Junto com a Sé Patriarcal, que achei muito bonita, pela simplicidade de suas linhas externas, em pedra quase bruta, o ponto alto, para a viajante, é a Igreja de São Vicente. Enquanto ela não abre, às 14 horas, visita-se o mosteiro, onde há ruínas da construção antiga e alas e mais alas cujas paredes estão recobertas com o mais puro e autêntico azulejo português, azul e branco, representando batalhas, conquistas, conversões e missões de fé. E uma inacreditável exposição permanente de 38 paineis representando as fábulos de La Fontaine. Há o Burro e o Cão, O Falcão e o Galo, Palavra de Sócrates. É simplesmente imperdível!
Igreja da Graça - Andando sempre, chego à Igreja da Graça, que tem várias capelas, entre elas uma com Nossa Senhora da Pérsia e um São Bento embaixo, todos altares em madeira policromada e ouro e muitos santos. Há um altar com o Senhor Morto e uma Nossa Senhora da Graça acima, muito bonito.
Não foi a viajante à Igreja do Menino de Deus, a que mais agradou a Saramago, porque já estava cansada, com os santos a misturarem-se em sua cabeça, apesar de ter boa memória iconográfica e ser capaz de reconhecer um Santo Agostinho, Santa Rita de Cássia, Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Ana, entre outros.
Desce a pé até a Alfama, mas não se perde em seus becos e ruelas, como aconteceu com Saramago, mesmo porque não se atreveu a entrar naqueles caminhos estranhos, às vezes malcheirosos. Foi ao miradouro da Nossa Senhora do Monte, mas a igreja estava fechada. Teve mais uma vista privilegiada de Lisboa e tomou o elétrico para o Chiado, início e fim de todos os dias, para sentar-se a descansar no João do Grão e conferir a indicação da Joana, que por sinal foi aprovadíssima.

