quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Guimarães, capital europeia da cultura

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Nossa Senhora de Oliveira e a oliveira ao lado

Guimarães, menos de 30 km de distância de Braga, ambas
importantes cidades do Minho, Norte português, é engraçada,
explica-se ao final. Diz-se daqui que é o berço da nacionalidade
portuguesa, porque era da cidade o D. Afonso Henriques, aquele que
saiu a cavalo a unir as terras da Lusitânia, que assim se chamava
antes de ser Portucália e Portugal, a expulsar os mouros e a construir
o estado português, um dos primeiros da Europa.


É uma cidade, com seu centro histórico, bonita de se ver, 
estudantes universitários a passear suas capas longas e pretas, faça
sol ou faça chuva. Há restos da muralha que cercava a cidade, essa
sim original e uns passos da Via Sacra espalhados aqui e ali, o que
deve tornar a Semana Santa e a procissão de Sexta-Feira Santa, muito
giras.


Há o largo com a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, a lembrar à
viajante seus tempos de menina e adolescente em Oliveira, Minas
Gerais, também com sua Matriz desse nome. Há a praça do Toural
 com uma igreja tocando o sino, mas fechada, e uma senhora sentada
num banco com quem a viajante conversa, mas ela só não sei pois,
não sei pois, se é Toral ou Toural, vai que a gente fala do modo errado,
não é?

E há o doce, toucinho do céu, cujo não se pode deixar de comer. A
viajante que é gulosa de doces come logo dois, aquela massa molinha
de ovos e amêndoas, recoberta por uma camada fina de açúcar de
confeiteiro e depois tem de tomar um sal de frutas Eno. Há pecado da
gula, mas depois se passa em outro templo, outra igreja, outro
santuário e pede-se perdão. Mas não há perdão para as aderências na
cintura e na barriga. Dessas, Deus não entende.

Castelo de conto de fada -
Guimarães é engraçada porque a maior


atração turística da cidade é o Castelo de Guimarães ou dos Duques

de Bragança, aqueles mesmos, D. João VI, D. Pedro I. Só que o que
existe é uma recriação do Antônio Salazar, dia cismou que tinha de
restabelecer alguns brios aos portugueses e mandou fazer aquele
castelo imitando mal e mal o que foi ali dos Bragança e que acabou-se
de abandono, após o fim da monarquia, em 1910 e o exílio do último
rei, D. Manuel II e sua mãe, dona Amélia, ela para Paris, porque era

da Casa Orleans e ele para Inglaterra.

É estranhíssimo, Saramago tem razão, não por ser imitação, mas pelo
interior todo recopiado de outras eras, aquele non sense de tapeçarias
a contar histórias da glória das conquistas portuguesas, imitações
feitas em Espanha, além de peças compradas a antiquários, enfim,
um engodo só. Talvez sirva para ensinar história para os miúdos  e ter
contribuído, como atração turística, para que a cidade fosse escolhida
como a capital europeia da cultura 2012, o que pelo que se viu, está
sendo cumprido com muita pompa e circunstância.

E a sua gente é muito simpática, filosofa a viajante depois de prosear
com uma garota do restaurante, que lhe conta sobre as roupas
penduradas nas janelas e lhe indica a melhor confeitaria da cidade,
pois, obrigadinha.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Turíbio em Santiago de Compostela

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...




Catedral de Santiago de Compostela, Praça Obradoiro


Para vós povos ignaros que não sabem o que é turíbio, explica-se logo
no princípio: é aquele incensório usado nas igrejas para benzer as
pessoas. É chamado também de fumageiro pelos espanhóis,
e outros nomes só se se recorre à senhora Elvira e ao senhor Memei,
que são mais versados no assunto que essa uma.

Mas como começar uma postagem sobre Santiago de Compostela,
falando de incensórios? Pois na igreja matriz, ali, na frente de
centenas de peregrinos, turistas, já ao final da celebração da missa,
antes da bênção final, os padres ofertam um show de Hollywood: o
voo do imenso turíbio sobre cabeças pecadoras. Com um metro e
meio de altura, fumegando em todos os cantos, puxado por 0ito
 senhores, ele voa sobre nossos pecados.

Repete-se, com gosto, um gesto das celebrações medievais, quando a
igreja ficava repleta de gentes que estavam no caminho há não se sabe
quanto tempo, sem banhos, nem roupas limpas, então para diminuir
os odores, um odor maior se alevanta, fé e saúde pública.

É um espetáculo numa igreja que nem precisaria de espetáculos. Mas
a fé é fraca e carece de aparências, de magnificências. Então juntam-se
o turíbio, a bênção, o abraço na estátua de São Tiago, pelas costas,
porque se passa pelo lado de trás do altar, onde ela, grandona em
ouros e pedras preciosas, está, e faz-se um Nome do Pai rapidinho na
frente de sua urna toda de prata.

Com isso, não se vá entender que a viajante está a criticar Santiago de
Compostela. Pelo contrário, é de opinião, diferentemente de
Saramago, de que a religião é antes de tudo aparência, seja nos
brilhos d’ouros das igrejas barrocas, seja nos “sons oceânicos” dos
órgãos, seja nos gritos e destemperos de alguns pastores. Por isso,
não convém misturar fé com religião ou vice-versa.

Santiago de Compostela, ou São Tiago dos Campos de Estrela, é o
lugar onde foi encontrado o último corpo dos apóstolos de Cristo.
Havia lendas de que ele teria vindo para as bandas de Espanha, dando
lá pelo Noroeste, onde fundou uma capelinha e passou algum tempo,
mas não calhava descobrir-se o local, até que em 860, um monge teve
uma visão, que envolvia uma chuva de estrelas a indicar um
determinado local. Lá foram encontrados três sepulturas, que a Igreja
reconheceu como as de Tiago e dois de seus seguidores, Atanásio e
Teodoro, que teriam levado para lá seu corpo, depois da morte em
Sevilha. A igreja foi dada a construir em 1.075, cinco depois da de
Braga, o que deixava uns e outros em guerra pela primazia de templo
mais antigo. 
 Então Santiago de Compostela, na Galícia, região Noroeste de
Espanha. Por pouco não caía em Portugal. A fronteira está logo ali,
Vigo do lado dos espanhóis e Valença de cá.

A catedral está na Praça do Obradoiro para onde converge tudo,
inclusive meia dúzia de uns funcionários insatisfeitos de um hotel
cinco estrelas das redondezas, a fazer um barulho infernal, que os
anjos perdoem a má palavra da viajante.

Depois é ficar-se por ali, voltar à catedral mais tarde, para apreciá-la
quase no silêncio dos poucos visitantes, já passado o reboliço da
celebração da missa, voltar à entrada onde está a urna com os restos
mortais de São Tiago, foi feito DNA para saber se era ele mesmo?
heresias de uma mente indagadora. Pouca fé, diria o irmão dela.
O abraço na estátua do santo é tradição

Santiago de Compostela continua a atrair turistas mais do que
peregrinos, afinal a vida desses não é fácil. Para ser reconhecido como
tal, ganhar o diploma e tudo, é preciso caminhar no mínimo 150 km,
nas três rotas oficiais, a de França, a da Espanha e a de Portugal. Mas
há notícias de outras rotas muito, muito antigas, que partem da
Hungria, Romênia, Polônia, porque São Tiago sempre foi muito
querido mesmo. E ao longo dessas rotas há abrigos para os
caminhantes, muitos deles ainda com algum resquício medieval

Deve ser bonito andar a pé por ali, com um cajado, sonhando com a
chegada à igreja, rezar um pouco em silêncio, agradecer a Deus tantas
graças e dar de cara com aquela multidão em burburinho, um
gaiteiro, afinal a Galícia sofreu forte influência dos celtas, com aquela
música irritante, uma manifestação trabalhista, o caminho da fé é
longo e árduo. Amém.



 

domingo, 28 de outubro de 2012

Bom Jesus e Congonhas

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir..

Bom Jesus de Braga, mãe de Bom Jesus do matosinhos, Congonhas

Ainda não era para dizer que em Braga viu-se pouco, porque afinal, dia seguinte viu-se muito, não só com os olhos, mas com o coração. Assim é que ao chegar-se ao Santuário de Bom Jesus de Braga, não se encontra só a escadaria a subir para o Céu, para que a penitência de tantos pecados seja aceita. Talvez falte escada a alguns, pensa a viajante.

Já prevenida por informações de parecências com sítios mineiros, a viajante tem um oh!, oh!, assim que o ônibus acaba de subir o parque, que é bonito por demais e dá com uns canteiros magnificamente floridos, simétricos, desenhados caprichosamente. 

Mas alguns dos ohs são para o conjunto arquitetônico dentro e fora da Igreja do Bom Jesus de Braga. É a irmã mais velha do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, ali em Congonhas.
Morte de Jeus, em esculturas
Congonhas, com seu pátio de profetas, os passos da Paixão de Cristo ou Via Sacra, e o interior
da igreja, foi feita sob a
inspiração do templo de Braga, não é para menos, o senhor que mandou construir emCongonhas, piedoso, recebedor de uma graça divina era de
Braga, fica-se a saber agora. Então foi dizendo como era, como não
era, sem qualquer retrato, já que o tempo

de construção entre mãe e filha foi de

cerca de 30 anos, ambas século XVIII.

Dentro da igreja há uma belíssima

imagem de Nossa Senhora das Dores,

com sete espadas, que nunca essa uma

havia visto. E no altar, também uma

surpresa, uma representação da morte de

Cristo em estátuas em tamanho real, quase soltas, ao contrário de quase todas as igrejas, onde a vida e morte são pintadas. Na do Bom Jesus elas são quase reais, soldados romanos sentados ao pé da cruz, os dois ladrões, cada um na sua lateral de direito, a Virgem e algumas mulheres.
E no adro, os profetas, assim como os de Congonhas, a sofrer os efeitos do tempo, em menor grau, porque são de pedra granítica e não da de sabão, como as de Aleijadinho, que esfarelam com o tempo, mas esfarelam mais ainda com a poluição das mineradoras. A viajante pensou que deveriam importar a ordem religiosa que cuida do santuário daqui para Congonhas, para ensinar aqueles hereges a colocar tudo num parque muito bem cuidado, imenso e ainda por cima paisagístico. E vai-se embora ruminando raivas de mineradoras e de prefeitos e de vereadores.
Santuário do Sameiro
Sameiro - E para completar as visitações religiosas vai-se a outro sítio que tem uma vista preciosa de Braga: o Santuário do Sameiro, dedicado à Imaculada Conceição, cujo foi o primeiro a ser construído em homenagem à Virgem Maria, depois que a Igreja Católica reconheceu, oficialmente, o dogma da concepção virginal de Maria, em 1836, tão tarde assim?  Aí o João Paulo II foi lá numa época e o lugar é muito apreciado pelos portugueses, que são fartos de santuários, são, e não, estão. Fátima, Nazaré, Bom Jesus de Braga, Sameiro.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Bracara Augusta

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Braga, no Norte de Portugal, é a capital da região do Minho. Foi fundada pelos romanos como Bracara Augusta e foi conhecida, durante muito tempo, como a cidade dos arcebispos, cujos mandavam aqui e algures, mais do que os reis, quando os havia. Aqui ficava a prelazia, ou seja, o manda-chuva de toda a região norte do país e mais parte da Espanha, então não era pouca coisa.

Conserva ainda hoje seu casco antíguo que é muito agradável de se passear, o que só se fez à noite, devido aos outros compromissos turísticos da viajante, que afinal deixou registrado com a guia, que não é possível vir a Braga e não vê-la de dia e, pior, não visitar a Sé Catedral, a mais antiga igreja de Portugal, erguida a partir de 1.070, sobre os vestígios de um templo romano.

A cidade convive bem entre passado e futuro, passado em suas relíquias históricas, futuro nas pesquisas de sua importante Universidade do Minho, entre elas a de nanotecnologia. Braga é uma cidade de universitários.

Mas é também famosa por sua indústria têxtil, que não podendo concorrer com a barateza dos produtos chineses, achou seu caminho na alta qualidade, o que a faz ser fornecedora de grifes famosas como a Yves Saint Laurent.

E Braga começa a ser conhecida também por um azeite recentemente criado aqui, com partículas de ouro, isso mesmo, com partículas de ouro, porque dizem que faz muito bem à saúde e é muito do agrado dos senhores ricaços russos.


Na sua excursão noturna, cheia de receios, porque por volta de 20h30, a cidade já estava quase deserta, onde estão os estudantes que gostam sempre de ficar aqui e ali, a viajante vai espiar a Sé Catedral de Braga.

E fica feliz com o resultado: um imponente e austero prédio em pedra granítica, que não é mais todo original, claro, mas que pelo menos não sofreu acréscimos barrocos, implica Saramago. Iluminado ao alto, com uma tímida lua ao canto é um convite à imaginação solta dessa uma, chão molhado de chuva de dia inteiro, tempo frio, imagens de vidas passadas.

Braga é assim: uma recriação de ideias, um bacalhau à braga muito bom, batatas em rodelas fritas, não crocantes, posta do peixe frita no azeite recoberta por molho do próprio, cebolas, pimentões vermelhos e verdes, azeitonas pretas e colorau, para dar aquela cor vermelho-ocre.

E uma visita rápida nos santuários de Sameiro e do Bom Jesus, que não chegam a ser preciosidades artísticas ou históricas, mas o primeiro, dedicado a Nossa Senhora da Conceição, é o segundo centro de peregrinação de Portugal, atrás de Fátima. E o Bom Jesus destaca-se pela beleza do parque natural à sua volta e pela imensa escadaria, quase a tocar o céu.

Viana do Castelo - Bem perto da Espanha, está Viana do Castelo, que nunca teve castelo algum. Tem uma travessia espetacular sobre o Rio Minho e uma vista ainda mais, no miradouro de Santa Luzia, no conjunto arquitetônico da igreja dedicada à santa protetora dos olhos.
É um templo que está no alto de uma encosta, por onde se chega por um estreito e tortuoso caminho de pedra, em ônibus, mas a vista compensa. Lá em baixo, o mar, a praia, a cidade e as serras ao fundo.
Mesmo com chuva é um passeio que agrada à viajante que gosta de misturar riquezas históricas e artísticas com paisagens naturais para refrescar os olhos, discípula aplicada que é, nessa viagem, de José Saramago.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Nápoles, cruzes!

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir.


A viajante tem-se penitenciado por exprimir primeiras impressões erradas, como o foi com Berlim. Mas depois se muda de opinião, porque a vida é mesmo assim, dia lhe parece rosa, e dia, cinza.

Nápoles parece à viajante um engano de imaginação. Nada daqueles lindos lugares, daquelas canções românticas, daqueles amores eternos. É nessa parte da cidade, próximo à estação de trens, um desalento só. Lixo, sujeira, decadência, centenas de imigrantes de Bangladesh, Tunísia, Marrocos, como camelôs nas ruas, llenas de bolsas falsificadas. A China é aqui, quem serão os exploradores?
Mas a culpa é da rapariga da Abreu, agência de turismo de Portugal, que reservou o hotel, cruz credo, um quarto num terceiro andar sem elevador, sem maleteiro, sem ar condicionado, sem internet, sobra pouco, um indiano muito gentil, faxineiro, que serve de intérprete em inglês para o monoglota recepcionista. Um café da manhã espartano.
E um maltês, não o cachorro, mas um nativo da Ilha de Malta, quem sabe onde fica ganha um doce, a prevenir a viajante que esta é a cidade mais violenta do mundo - pensei que fosse o Rio-, menos mal, que é horrível, que não há nada para fazer aqui, que deveria ir para Capri. Enquanto se janta num estranho lugar e o dito fica insistindo para a viajante, "join me", mostrando a cadeira, no thanks, no thanks, I'm fine, e ele se zanga e sai derrubando cadeiras, olé! Onde fica a ilha de Malta, mesmo?
Então é culpa da rapariga que escolheu um hotel horrível. Hotel? Quanta bondade, pensão de quinta, a viajante tentou mudar de opinião, quando passou na manhã seguinte pela orla, com hotelões e mar, mas aí, é covardia, porque se embarca para Capri.
Mas Nápoles tem o Vesúvio e uns museus arqueológicos, dizem que muito bons, mas a uma não teve ânimo de ir. E ainda perdeu o passeio que faria por Pompéia e Herculano, aquelas destruídas pelo vulcão, porque ficam a mais de 50 km da cidade e a viajante trocou a passagem assim que chegou lá.
Então fica para a próxima vez, que aí não se hospeda em Nápoles, mas vai e volta de Roma mesmo. Melhor não arriscar. 

Tema da postagem:
Torna a Sorriento



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Capri, un dolce far niente

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Capri é assim tudo aquilo que se via nos filmes. Casas singelas, brancas, casarões, palacetes nas encostas íngremes, como se  constrói por ali?
Uma natureza de matar de inveja paraísos tropicais, cores e cores a perder  de vista. Há flores e árvores e as águas azuis e turquesa do Mediterrâneo. Anacapri, outra cidade ao lado, é uma graça, ruas estreitinhas, pena que inteiramente dedicadas ao comércio. Come-se muito bem, um pescado, frutos do mar ou uma pasta.
Capri é o paraíso dos ricos, diretores da Ferrari, da Granble, aquela das comidas de bebês, e por aí, casinhas estupendas em pontos isolados.

E coroando tudo, a volta pela ilha para se ver as cavernas, a mais famosa, a Azul, cuja se vê pouco, porque o barco é grande e está lotado de barquitos bem em frente, das gentes que pagaram mais caro para ver de perto.

A verde, a de estalactites azuis, há para todo gosto, os três rochedos, arcos construídos pela natureza nos penhascos. A viajante quer ganhar na Megassena e comprar uma casinhola aqui, para juntar os velhos velhos e os novos velhos amigos, além de suas tribos familiares, de quem não prescinde jamais.

domingo, 21 de outubro de 2012

Uschita Roma


Termas de Diocleciano abrigam Santa Maria dos Anjos e Mártires

 Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...
Na saída de Roma (uschita), ainda há tempo para aquele andar sem rumo, tão ao gosto da viajante. E nisso dá com uma igreja que não estava no programa, Santa Maria dos Anjos e dos Mártires, na Praça da República. É bem visitada, não como a do Vaticano, porque é preciso se eleger algumas igrejas, para não se ficar apenas no Ave Maria, Pai Nosso, Amém, então muita gente deixa de ir.
Santa Maria dos Anjos é, talvez, a maior surpresa de Roma não aquela badalação, como São Pedro e Santa Maria Maggiore. Não, não, a viajante não está sendo volúvel, já que elegera Maggiore, o mais precioso templo.
 É que a dos Anjos tem história mais antiga. Está nas ruínas das Termas de Deocleciano, ruínas por fora, porque por dentro é um projeto de Michelângelo, encomendado por Pio IV, em 1561, diante do rogo de Santo Antônio Lo Duca, São Felipe Neri e  San Carlo Borromeu, porque aquelas termas foram construídas com o sangue e suor dos primeiros cristãos e a igreja seria uma homenagem.
Afora o fato de ser projeto de Michelângelo, imagina se é pouco, e de ter um São João Batista do escultor francês Houdon, tão presente em obras de Portugal, segundo Saramago, Santa Maria dos Anjos e dos Mártires tem um meridiano que a atravessa longitudinalmente, com os signos zodiacais e seus solstícios de inverno e verão e ainda o equinócio, interessante mistura do sacro e do profano. E ainda, no dia, havia uma exposição sobre Galileu Galileu, isso mesmo, aquele que a igreja condenou por heresia e que se safou com o la terra no se mueve, y sin embargo, se mueve. Está ali sua escultura Lúcifer e uma invenção, o pêndulo, cópias, naturalmente.

E ao final ainda ver as quatro fontes, um pouco visitado monumento, porque está num cruzamento de esquinas estreitas e muito, muito movimentadas, com uma fonte e uma estátua em cada um dos quatro cantos, a merecer mais atenção das autoridades romanas, pelo estado de degradação, por causa da poluição dos carros, em que se encontram. Uma das fontes está no prédio da igreja de San Carlo Quatri Fontane, singela e também preciosa.
E para despedir, outra igreja, a de Santa Maria de La Vittoria, carmelita, e bastante rica, mas que tem um padre, que estava à paisana, muito estranho, porque enxota um grupo de turistas alemães, tão contritos coitados, já é meio-dia, hora de fechar, sinos tocando em todas as igrejas próximas. Mete-se o rabo entre as pernas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e passa-se logo abaixo para o Palácio Barberini, que não há mais tempo de ver, também de museus já se esgotou a cota, só os jardins.
Arriverderci Roma.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Capela Sistina e Sta Maria Maggiore

Coloquei Saramago  (Viagem a Portugal) e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Entrar na igreja de Santa Maria Maggiore, ao lado mesmo da estação de trens de Roma e ouvir um pequeno grupo de fiéis e três padres celebrando uma missa e cantando em português do Brasil, numa das capelas laterais provoca um conflito. Sta Maria é mais bonita que a Basílica de São Pedro?

É um pergunta retórica que a viajante se faz, ao sentir que na primeira se está num templo sagrado, com padres ali no confessionário à espera de sua confissão, com a luzinha vermelha ou verde, a indicar o ocupado e o desocupado. Encontrar uma freira que pergunta se essa uma conhece Bom Despacho, em Minas, "vêssipódi, uai, óprocevê", porque a família tem uma casa lá, a da freira. E ainda tocar a mão de Jesus, na Porta Sagrada.

Na Basílica está-se num monumento, mesma sensação quando se entra em Santa Engrácia, Lisboa, panteão nacional, mais do que igreja.

São Pedro é maravilhosa, com tantas obras de arte, aquele baldaquino ao centro sobre o túmulo de São Pedro, bonze dourado do exuberante Bernini, enorme a apontar para o céu. E a Pietá, Michelângelo, logo ali na entrada, linda, linda, a lembrar outra em uma capela de hospital. Mas não há calor, não há espírito religioso ou fé. Só admiração. E já é muito, que é o que tem que ser, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Sistina - Essa uma já não se lembrava mais dos museus vaticanos e foi por ali, seguindo a boiada, imensa que é, de gente fuçando o passado. Entra sala, sai sala, das Tapeçarias, dos Mapas, e só andando e sobe, sobe, sobe, desce, desce, desce e oh! oh! oh!, é a Capela Sistina e o Juízo Final. Michelangelo sem juízo. Mas atenção, é preciso olhar com a lente zoom da câmara fotográfica, para se ver os detalhes, os dedos quase se tocando, imagem mais recortada e difundida, união de mundos a um toque de dedos. E o guarda a fazer psiu, xiiii, psiiiuuu, como se fora possível admirar em silêncio.


E visitar o Castelo de Santo Ângelo, logo ali perto, admirando a quilométrica muralha de um legítimo burgo medieval, hoje guardando um bairro da cidade. Subir as escadarias pretas, escuras, pedra pura e sair nos terraços e ter a melhor vista de Roma e do Vaticano, com o Rio Tibre bem ali na porta. Sto Ângelo foi residência do Papa Paulo III, lá pelos 1500 e tem uns afrescos de Adriano, o coitado todo esquartejado e espalhado por meia Roma, se fosse inconfidente seria Tiradentes. Há um pedaço de Adriano por toda parte, um busto, um retábulo do mausoleu, mas a Vila Adriana está alí, em Tívoli, já fora de Roma, dizem que linda, pouquissimamente visitada, incluindo essa uma, que perdeu o tour para lá por questão de um dia.

A Praça deEspanha é outro ponto que todas as gentes vão, cuja não tem nada de mais, só a escadaria para sentar e descansar e tomar fotos, com a Trindade Sagrada lá no fim ou começo das escadas e a Dior e a Prada no pé.

E por fim, a Fontana de Trevi, novamente e novamente, à noite, será que a viajante está com desejos? e tomar um gelatti. Eis Roma, com o coração.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Roma com amor

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...


Fontana de Trevi, de manhã
Roma é assim, clichemente, se esta palavra houvera, a cidade eterna. Passar por ela é lembrar com doçura de La Dolce Vita, de Felini, Roma Cidade Eterna, de Roberto Rosselini, até o mais recente, Para Roma com Amor, de Woody Allen. Ou o inesquecível Candelabro Italiano, pela belíssima Al di la, ouça aqui a música mais linda e romântica que já se fez, imaginação de danças esvoaçantes em salões de mármore branco.

Mas é também o inesperado de um encontro familiar, irmã e sobrinho, com um dia de risadaria, "falando groselha" e ter os olhos lacrimejar de tanto rir, pela pergunta de Samuel, "quem é esse Saramago que está viajando com a tia Adriana", e "quem é a viajante que ela fala o tempo inteiro", o rapaz  não é bobo, só faz tipo, a gente sabe. E ver a Elvira quase destruir uma loja, ao jogar um cabideiro no chão e esbarrar num manequim, elefante em loja de cristais, "tanto riso, tanta alegria". Quem não ficaria, em Roma?

Então vai-se por ali no Coliseu, com piadas e insensibilidades de povos bárbaros que somos, 500 anos só de história e os romanos, ai que inveja, milênios. Forum Romano, Palatino, Arco de Tito, Arco de Constantino, Templo de Adriano, Pantheon, Monumento de Vitor Emanuel, e claro, de dia e de noite, Fontana de Trevi, jogar uma moedinha bem sem valor, para não gastar muito, e voltar. Funciona, a viajante voltou.

Passear com vagar, de mapa na mão, parando em cada lugar, sentando no chão, comendo um sanduíche, disputar um lugar para a foto em cada monumento, encher a garrafa de água nas dezenas de fontes espalhadas por toda parte, sem correria, sem tempo certo, Roma é eterna.

Perder o caminho de volta para o hotel e encontrar a rua, já na porta dele. Discorda a viajante, para não perder o costume, de que Veneza é para os apaixonados. É Roma. Se não se está em amores, caia-se pela cidade, amadamente.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Budapeste realista

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...

Budapeste sob a neblina
Budapeste com sol

E de repente Budapeste não é mais impressionista, mas realista, porque seu clima câmbia da noite para o meio dia e sai um sol e um céu azul de morrer.

Então vai-se para o Parlamento e é aquele deslumbramento de matar de inveja os colegas da Assembleia da viajante, porque têm de trabalhar naquele prédio assim assim, e o daqui é luxo só, porque quem gosta de miséria é intelectual, dizia Joãozinho Trinta.
Parlamento à noite, fachada vista do Danúbio
À noite, o prédio pode ser visto do Rio Danúbio, feericamente iluminado, mais do que Torre Eiffel, porque é maior para os lados e é impossível não se apaixonar. Por dentro é mármore rosa, arcos, abóbodas, colunas, tudo em escala maior, mania de grandeza desses húngaros.

E tem a sala da Coroa Sagrada, cuja não é possível entender direito, ainda que a guia repita mil vezes que é ela, coroa, que manda no país, no povo, no rei se esse houvera, mas é primeiro-ministro e manda nesse também. A coroa tem mil anos e manda assim até hoje, imagina quando era criança birrenta e adolescente rebelde!
E ali embaixo é o local de trabalho das excelências

Mas o Parlamento, com toda sua magnificência, está na mira do governo, que quer reduzir o número de parlamentares dos atuais 386 para menos, não se sabe quantos, porque eles dão muita despesa, assim é mundo afora. Os parlamentares são muitos, considera o governo, porque o país só tem 10 milhões de pessoas, fazer o quê todos os 386 para tão poucas gentes? E ainda ganham seis vezes mais do que quem ganha o salário mínimo, 120 mil florins, e 720 mil as excelências, o povo húngaro não conhece o Brasil.

Mercado e São Estêvão - Depois é fazer a maratona para conhecer o mercado, muito interessante como o são os mercados mundo afora, mas este é todo de metal, do Eiffel, já se disse. E conhecer a Basílica de Santo Estêvão, a maior e mais importante do país, mas ao invés de começar a visita pelas vantagens dos húgaros, uma aloprada guia começa pela Virgem de Czestochowa, da Polônia, aquela negra, não de  cor, mas pelo material onde foi desenhada por São Lucas, e a mulher disse que foi São João, preferida de João Paulo II, vá-se entender os critérios de una, a viajante perde a paciência e desgarra-se.

Depois vai ao prédio da ópera, assunta aqui e ali e fica na entrada, para não ter de pagar.
E volta ao Castelo Distrital, onde estivera no dia anterior, debaixo de garoa e neblina e maravilha-se com a paisagem de Buda, lindamente encarapitada em suas colinas, com suas histórias de bispos Gerardos atirados em barris do alto do morro, na parte mais alta; a Cidadela, onde a polícia tinha umas muralhas, século XIX, que aqui nada é antigo, apesar das origens lá pelos anos 800 da Era Cristã.
O Café mais bonito do mundo
Café New York - Mas sentar-se à tardinha no café New York, tomar um capuccino e comer uma torta de maçã e baunilha, não tem preço. Aliás tem, 15 euros. Mas está-se no "mais bonito café do mundo", comprova-se a publicidade, pelo luxo interior, coisa dos tempos da "belle èpoque", faltou ver entrar aquela condessa decadente húngara do "Casablanca". Veludos vermelhos, espelhos e lustres de cristal, dourados nos adornos. E a imagem de João e Antônio apreciando muito a beleza do lugar.

E vale mais uma vista d'olhos no Danúbio à noite e nos castelos e imaginações iluminados, que amanhã é outro dia de sonhos.

Danubio à noite



Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Depois se acrescentam as fotos de ontem e de hoje, e os acentos, porque de um teclado em húngaro, língua que é única, nem anglo, nem saxônica, nem românica, mas agora é preciso aproveitar-se o tempo.

O que dizer de um passeio pelo Danúbio à meia-noite? Que se vai dar com o Conde Vlado, o Drácula, logo ali na curva poderia parecer imprecisão geográfica, mas não é, pois a Transilvânia, de onde veio o Drácula, era parte do território húngaro até pouquíssimo tempo, perdida naquelas bicadas que os vizinhos deram daqui e dali, como já se disse, dessa vez Romênia no ataque e é goool. 

Assim é o deslizar-se pelo Danúbio à noite, com palácios, torres e o Parlamento, que alumbramento, luzes e muito. Não tem como não divagar, "a vida é bela", Roberto Benigni, e depois silêncio na valsa de Strauss.

Charda - Mete-se a viajante por uns matos afora, não sozinha, afinal é noite em Budapeste, com aquela garoa insistente, atravessa um bosque que deve ser bonito de dia, de noite vê-se pouco e chega numa dessas casas de shows para turistas e acontece de tudo. Comilança como num fim de guerra na tenda de uma tribo nômade húngara qualquer. E bebidas, uma cachaça fortíssima, chamada palinka, 50 graus no mínimo, entende-se aí parte do modus operandi desse povo. E música e dancas, completo o bacanal está.

Qual a impressão de Budapeste? Povo único, que não é cigano como de crianças pensávamos, mas da Asia Central, que se juntaram aqui nestas terras em outras eras, por acharem o clima muito bom, isso porque nao conheciam o Brasil. E falam a língua lá deles, dificílima, com seus 14 fonemas e 17 declinações, já pensou o que é isso?
http://www.youtube.com/watch?v=foQpms3L9gU