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| Catedral de Santiago de Compostela, Praça Obradoiro |
Para vós povos ignaros que não sabem o que é turíbio, explica-se logo
no princípio: é aquele incensório usado nas igrejas para benzer as
pessoas. É chamado também de fumageiro pelos espanhóis,
e outros nomes só se se recorre à senhora Elvira e ao senhor Memei,
que são mais versados no assunto que essa uma.
Mas como começar uma postagem sobre Santiago de Compostela,
falando de incensórios? Pois na igreja matriz, ali, na frente de
centenas de peregrinos, turistas, já ao final da celebração da missa,
antes da bênção final, os padres ofertam um show de Hollywood: o
voo do imenso turíbio sobre cabeças pecadoras. Com um metro e
meio de altura, fumegando em todos os cantos, puxado por 0ito
senhores, ele voa sobre nossos pecados.
Repete-se, com gosto, um gesto das celebrações medievais, quando a
igreja ficava repleta de gentes que estavam no caminho há não se sabe
quanto tempo, sem banhos, nem roupas limpas, então para diminuir
os odores, um odor maior se alevanta, fé e saúde pública.
É um espetáculo numa igreja que nem precisaria de espetáculos. Mas
a fé é fraca e carece de aparências, de magnificências. Então juntam-se
o turíbio, a bênção, o abraço na estátua de São Tiago, pelas costas,
porque se passa pelo lado de trás do altar, onde ela, grandona em
ouros e pedras preciosas, está, e faz-se um Nome do Pai rapidinho na
frente de sua urna toda de prata.
Com isso, não se vá entender que a viajante está a criticar Santiago de
Compostela. Pelo contrário, é de opinião, diferentemente de
Saramago, de que a religião é antes de tudo aparência, seja nos
brilhos d’ouros das igrejas barrocas, seja nos “sons oceânicos” dos
órgãos, seja nos gritos e destemperos de alguns pastores. Por isso,
não convém misturar fé com religião ou vice-versa.
Santiago de Compostela, ou São Tiago dos Campos de Estrela, é o
lugar onde foi encontrado o último corpo dos apóstolos de Cristo.
Havia lendas de que ele teria vindo para as bandas de Espanha, dando
lá pelo Noroeste, onde fundou uma capelinha e passou algum tempo,
mas não calhava descobrir-se o local, até que em 860, um monge teve
uma visão, que envolvia uma chuva de estrelas a indicar um
determinado local. Lá foram encontrados três sepulturas, que a Igreja
reconheceu como as de Tiago e dois de seus seguidores, Atanásio e
Teodoro, que teriam levado para lá seu corpo, depois da morte em
Sevilha. A igreja foi dada a construir em 1.075, cinco depois da de
Braga, o que deixava uns e outros em guerra pela primazia de templo
mais antigo.
Então Santiago de Compostela, na Galícia, região Noroeste de
Espanha. Por pouco não caía em Portugal. A fronteira está logo ali,
Vigo do lado dos espanhóis e Valença de cá.
A catedral está na Praça do Obradoiro para onde converge tudo,
inclusive meia dúzia de uns funcionários insatisfeitos de um hotel
cinco estrelas das redondezas, a fazer um barulho infernal, que os
anjos perdoem a má palavra da viajante.
Depois é ficar-se por ali, voltar à catedral mais tarde, para apreciá-la
quase no silêncio dos poucos visitantes, já passado o reboliço da
celebração da missa, voltar à entrada onde está a urna com os restos
mortais de São Tiago, foi feito DNA para saber se era ele mesmo?
heresias de uma mente indagadora. Pouca fé, diria o irmão dela.
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| O abraço na estátua do santo é tradição |
Santiago de Compostela continua a atrair turistas mais do que
peregrinos, afinal a vida desses não é fácil. Para ser reconhecido como
tal, ganhar o diploma e tudo, é preciso caminhar no mínimo 150 km,
nas três rotas oficiais, a de França, a da Espanha e a de Portugal. Mas
há notícias de outras rotas muito, muito antigas, que partem da
Hungria, Romênia, Polônia, porque São Tiago sempre foi muito
querido mesmo. E ao longo dessas rotas há abrigos para os
caminhantes, muitos deles ainda com algum resquício medieval
Deve ser bonito andar a pé por ali, com um cajado, sonhando com a
chegada à igreja, rezar um pouco em silêncio, agradecer a Deus tantas
graças e dar de cara com aquela multidão em burburinho, um
gaiteiro, afinal a Galícia sofreu forte influência dos celtas, com aquela
música irritante, uma manifestação trabalhista, o caminho da fé é
longo e árduo. Amém.


