terça-feira, 18 de setembro de 2012

Enfim Saramago em seu museu

 Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Fachada da Casa dos Bicos

Saramago com Jorge Amado, entre outros
Alguns podem estar a se perguntar, por que, gostando tanto de José Saramago, há nove dias em Lisboa, a viajante ainda não havia ido vê-lo.

Pois foi ontem e se emocionou tanto que nem teve ânimo de escrever, mesmo porque teve outras emoções, na Casa de Fernando Pessoa, tema de postagem à parte.

Mas voltando a Saramago: lá está sua alma, na Casa dos Bicos, no Terreiro do Paço, por onde se chega de elétrico, de autocarro e a pé, dependendo da disposição de andar. Sua alma está do lado de dentro , espalhada na exposição permanente "José Saramago: a semente e os frutos"; e suas cinzas, de fora, debaixo de uma árvore plantada em frente, trazida de sua terra, Azinhaga.

A casa é um labirinto, mas há uma explicação: que o visitante encontre o caminho que quiser para chegar a Saramago.

A viajante vai passando pelas salas e enchendo os olhos de imagens e de lágrimas, ao descobrir os pequenos objetos dele: caderninhos de anotações, agendas, manuscritos, provas, revisões. Pensou que iria encontrar sua vida privada, como na casa de Neruda em Santiago do Chile e na de Valparaíso. Mas não. Encontra a mente e o coração do formidável português, seu companheiro não só de viagem, mas de tempos insones, de deleites diários.

O museu, casa onde ele nunca morou, como a de Fernando Pessoa ou a de Neruda, é um exemplo de modernidade: audiovisuais, telas de LCD pelas salas a exibir suas entrevistas, constantemente. E fotos, centenas. E os livros. Ah, os livros!

A viajante procura ansiosamente pelos seus preferidos, mas são todos; e surpreende-se por descobrir uma obra que achava conhecer completa, mas descobre outra: peças de teatro, livros infantis.

Vê com olhos do coração os manuscritos de "Levantado do Chão", "História do Cerco de Lisboa", "Evangelho segundo Jesus Cristo", "Memorial do Convento", para quê citar outros? Mas ainda Caim, ah, já próximo de seu fim, dá à humanidade Caim, alterego de muitos de nós, a questionar os desígnios de Deus e a criticá-lo.

Espia detalhadamente um painel de fotos, Saramago abraçado a Garcia Marques, a Vargas Lhosa, outros dois de seu coração. E uma fileira inteira de fotos com Jorge Amado, Zélia Gattai, Saramago na Bahia, no Pelourinho e por ali, de bermuda e chinelo.

De presente há uma exposição dos 100 anos de nascimento de Jorge Amado no 4º andar. Fotos e livros. Comovente. Na fachada da Casa dos Bicos, essa é a chamada principal, com imenso painel de Saramago e Jorge Amado.

Pouca gente em visita, mas a viajante vai e volta, a olhar e olhar e depois quer comprar algo, mas não se decide. Há uma coleção de seus livros editados pela editora Caminho, todas com bonita capa amarela, então leva "In Nomine Dei", porque lhe pareceu não o ter lido. Vai conferir mais tarde.

E vai-se embora com pesar no coração, porque acredita que gente como Saramago não devia morrer nunca, nem um pouco.

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