domingo, 23 de setembro de 2012

Sábado na Feira da Ladra

Coloquei Saramago e Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa) na bagagem, tomei emprestado do primeiro a narrativa na terceira pessoa (a viajante) e vim descobrir...



Nesse sábado de "a-toísse", privilégio de quem não está de passagem rápida por Lisboa, a viajante vai para Alfama. Desce no Largo das Portas do Sol, depois de pegar o elétrico 28, entupido. Mas ali ainda não é Alfama. Volta à Igreja Menino Deus, mas ela continua fechada.

Então pergunta para um morador, sentado à porta de casa, se a Alfama está perto. "Tá, pois, meta-se ali à direita, siga os trilhos do elétrico. Já fostes à Feira da Ladra? Hoje é dia, só terça e sábado. É perto".

Lá se foi, descendo, descendo e dá na igreja de São Vicente de Fora. Atrás fica o Largo da Ladra.

Entra pelo arco lateral e quase volta: "a Feira da Ladra é uma roubada", escuta Naiara a falar em sua lembrança, porque ela não está ali, mas no Brasil.

Só porque é um indistinguível comércio de roupas e trecos usados, ali na entrada, com uma mulher oriental, talvez indiana, talvez marroquina, a berrar: "ropa é unheiro" (um euro, entenda-se).

Mas Naiara  é assim mesmo, e a viajante ignora o comentário que poderia ter sido também "é um mercado de pulgas e não de antiguidades, como o de Santelmo, em Buenos Aires". E a viajante passeia aqui e ali, nas diversas ruas onde a feira se espraia.

Tem de tudo, roupas e calçados velhos e sujos, eletrodomésticos antigos e quebrados, revistas, jornais, gravuras, velhos. Uma ou outra louça antiga, se calhar.

Muita bugiganga, como em mercados de pulgas, até no da Lagoinha, quando existia, por isso a viajante prossegue com olhar atento. E vê uma barraca com máquinas fotográficas antigas, as lomos, uma reflex de estúdio.

Ah, o olho treinado descobre algo: livros, muitos livros. Novos, velhos, talvez raros. Mas não dá para comprar nada, a viajante pensa no peso das malas e se senta a um boteco (esta palavra não existe por aqui). E come uma feijoada, com duas cervejas, coisas de "A Cantina", da brasileira Selma.

Um dia de Feira da Ladra foi suficiente. Naiara tem razão.

E enfim perde-se nos becos da Alfama, como Saramago, e acaba perto da Alfândega, onde é obrigada a tomar um sorvete, mesmo muito satisfeita com a feijoada, porque o calor está demais!

Pela madrugada, cai uma tempestade e a temperatura em Lisboa começa a mudar: uma brisazinha e um sol menos inclemente. Já não era sem tempo

3 comentários:

  1. Não precisava nem dizer que seria um desastre completo. Pra inicio é uma feira!! Além do mais no mais nomeada de feira da "ladra", subtenda-se, uma roubada, ou, segue bem as bolsas!!! O cartão de boas vindas nada mais é que uma "chino" te oferecendo uma micose: " unheiro,unheiro aqui no Brasil é graça"! É tanta bugiganga junta que o ar empestiado leva a viajante a devanear, senão vejamos: San Telmo, ok! Kkkkk. O ápice do devaneio é atingido quando a mesma apesar da sábia Naiara lhe dar vários avisos para ir embora da biboca das pulgas ela ainda resolve, num calor de uns 30 graus comer uma feijoada em terra especializada em bacalhau pode?

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  2. Devia se chamar feira do destino! Pois vc é que não observou bem, mas aposto que a marrom de oncinha tava lá na mesinha da Ladra que te afanou!!!!kkkkkk

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  3. Pros dois comentários: viajar é isso:descobrir. Até as "roubadas".

    E nãos e esqueça que a a marrom de oncinha foi devolvida. A mulher do "unheiro", não teve tempo de ir negociá-la. Kkkkaaaa

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